''Brasil pode crescer até 5% em 2010''

Para Jim O?Neill, o célebre economista-chefe do Goldman Sachs que cunhou a expressão Brics, o Brasil pode crescer até 5% em 2010 e está se saindo muito bem no enfrentamento da crise econômica global. Os Brics são o grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Foi em 2001, num relatório do Goldman Sachs, que O?Neill criou a expressão, que ganhou vida própria e levou os próprios Brics a se reunirem como grupo, pela primeira vez, em Ecaterimburgo, na Rússia, no dia 16 de junho.A crise econômica global, segundo o economista, vai antecipar de 2037 para 2027 a sua previsão de que os Brics ultrapassarão em PIB o G-7, as sete principais nações desenvolvidas. A razão, para ele, é que existe um indiscutível descolamento de grandes países emergentes em relação ao quadro sombrio das economias ricas, o que acelerará a convergência. O descolamento, para O?Neill, é totalmente evidente no caso de China e Índia, para os quais prevê crescimento simultâneo a 10% ao ano no início da próxima década. O Brasil, para ele, é um caso intermediário, tendo sido muito afetado inicialmente, mas demonstrando o que considera uma impressionante capacidade de reação. O?Neill mostra-se um entusiasta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chega a atribuir a ele - num arroubo que talvez seja considerado injusto por admiradores do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - o "ambiente de baixa inflação introduzido no início da década". O economista também não mede palavras para elogiar Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Grande fã de futebol e ex-diretor do Manchester United, O?Neill arriscou também palpites para a Copa do Mundo. A seguir, a entrevista, feita por telefone, na quinta-feira, da sede do Goldman Sachs em Londres.Como sr. vê o desempenho dos Brics na crise econômica global?Com a exceção da Rússia, acho que foram excepcionalmente bem, particularmente China e Índia. Eu tenho uma visão de que esta crise, na verdade, está se tornando boa para a China, porque a forçou encarar um fato realmente importante: a sua economia era dependente demais do crescimento via exportações, e era evidente que em algum momento eles teriam que mudar esse modelo. Acredito que eles fizeram isto, mais precisamente em novembro passado, quando lançaram seu enorme pacote fiscal e monetário (de estímulo à demanda interna) em reação à crise global. Eu fiquei muito, muito impressionado com a reação da política econômica por parte da China. Então, para a China, e para o mundo, no qual a China é tão importante, a crise foi de fato uma boa notícia.E no caso da Índia?Quando se pensa na história da Índia e no que se chamava no passado de taxas indianas de crescimento, de 3%, o fato de que a Índia vai crescer perto de 6% nesse ano, mesmo com o colapso do PIB mundial e, em particular, do PIB americano, é excepcional. E isso é um sinal, por um lado, de quão positivas foram as mudanças na Índia, e, em segundo lugar, é claro, do quão voltada para si mesma é a economia indiana. Então, houve de fato o chamado descolamento dos emergentes?Sim, a ideia de que o descolamento nunca aconteceu está errada. Quem diz que não houve descolamento, em minha opinião, não sabe do que está falando e não olha as evidências, que são particularmente fortes no caso da China e na Índia. Estamos prevendo para a China crescimento de 8% neste ano e de quase 11% para o próximo. No caso da Índia, ligeiramente abaixo, de 6% em 2009 e 7% em 2010, mas já com a perspectiva de revisar para cima essa projeção. No caso do Brasil e da Rússia, obviamente é diferente.Qual a sua avaliação da situação do Brasil?Nesse caso, a queda do preço das commodities foi um desdobramento muito negativo, mas eu acho que, a cada semana que passa, a evidência é que o Brasil está enfrentando a crise muito bem. A recessão no Brasil provavelmente será muito superficial. Para o Brasil, não ter uma crise nesse momento é muito impressionante.E por que desta vez o País está se saindo bem?Acho que o Brasil tem o mais forte arcabouço de política macroeconômica que eu, que tenho 50 anos, já testemunhei em toda a minha vida. É muito impressionante que o ambiente de baixa inflação que Lula introduziu no início desta década tenha sobrevivido à crise. Isto, na verdade, permitiu que o Brasil reduzisse a taxa de juros durante a crise. O Brasil jamais foi capaz de fazer isso em crises do passado. Você conhece o Paulo Leme (brasileiro que é diretor de pesquisas de mercados emergentes do Goldman Sachs)? Eu estou sempre apostando com o Paulo que o crescimento no Brasil será mais forte e mais rápido do que ele pensa. Acho que no próximo ano é possível que o Brasil chegue a 5% de crescimento. Muitos economistas brasileiros criticam a expansão de gastos com Lula. Qual a sua visão?Tenho opiniões matizadas sobre isso. Acho que esta crítica é claramente verdadeira no longo prazo. No entanto, penso que Lula e seu pessoal sentem que é necessário aplicar políticas que ajudem toda a comunidade de brasileiros e isso requer que eles demonstrem que muitas pessoas podem ser beneficiadas. Então, para eles, cortar fortemente despesas do governo, como as pessoas frequentemente mencionam, traria o risco de se ficar no modelo de Chicago (da Universidade de Chicago, conhecida pelo liberalismo), que falhou de forma tão medíocre em países como a Argentina. Então eu acho que a escolha de Lula deu maior credibilidade social ao Brasil. Por outro lado, isso significa que, olhando para a frente, seja quem for que substitua Lula vai ter, em algum momento, que lidar com esse problema, porque ele existe. Entre os grandes desafios que o Brasil tem pela frente, reduzir o tamanho do setor público talvez seja o maior.Qual a sua projeção para o desempenho dos Brics nos próximos anos?Quando vejo o que está acontecendo na China e na Índia em termos de política econômica, acho possível que, nos primeiros cinco anos da próxima década, esses países cresçam simultaneamente a uma média de 10% ao ano. Isso é uma taxa de crescimento que a Índia nunca teve. Pode ser muito excitante. Quanto ao Brasil, acho que uma taxa de 5% (ao longo de vários anos) é alcançável. Se tivéssemos conversado dois anos atrás, eu seria mais cético, diria algo entre 3% e 4%. Eu acho que muita gente subestima os sinais do desenvolvimento do grupo de renda média no Brasil, formando uma grande classe média. É um desenvolvimento muito positivo. Quanto mais eu penso no Brasil, mais impressionado eu fico. No caso da Rússia, nossas projeções são muito cautelosas, de uma tendência de 3% a 4% nos próximos anos.Como isso afeta a previsão de que os Brics ultrapassarão em PIB o G-7?A crise fez com que eu acreditasse que isso vai acontecer ainda mais rápido. Acho que provavelmente vai ser nos próximos 20 ou 25 anos. Costumávamos prever para 2037 e agora dizemos que será até 2027, dez anos antes. E qual a sua visão sobre os efeitos da crise no mundo rico?Acho que vai ser uma recuperação fraca no mundo desenvolvido. Os Estados Unidos ainda têm esse problema do consumidor estar altamente alavancado, e o consumidor representa um pedaço muito grande do PIB americano. Isso ainda tem de diminuir, é algo que os Estados Unidos não podem evitar. E esse processo é o que torna bem difícil que a economia americana se recupere muito fortemente.E os outros países desenvolvidos?Estou realmente bastante preocupado com a Europa e, particularmente, com a Alemanha. Me surpreende muito que a política alemã permaneça tão presa no que chamo de mentalidade conservadora. Eles têm de mudar a sua forma de pensar para que se tornem menos dependentes da demanda externa, como os chineses fizeram. E os alemães não fizeram. O que é surpreendente, o que é realmente incrível na Europa, e no Japão também, é que, apesar de toda esta crise, ele não mudam as políticas. É surpreendente e amedrontador. Não há, de fato, nenhum ponto brilhante no mundo do G-7. Talvez com a leve exceção do Canadá. E como o sr. vê o Reino Unido, o seu país?Acho que, porque a política econômica pós-crise do Reino Unido foi tão agressiva, o país pode mostrar sinais fortes de recuperação no próximo ano e surpreender muita gente, crescendo mais rápido do que se prevê. Mas o Reino Unido também tem desafios muito sérios em termos de políticas mais estruturais.Como o sr. avalia o governo Obama até agora?Eu sou um sócio pleno do fã-clube do Obama. Essa crise requeria uma reação de política econômica agressiva por parte do governo e capacidade de comunicação com o povo americano em tempos muito complexos, e penso que ele conseguiu. Acho que, até agora, Obama tem sido exatamente aquilo de que os Estados Unidos precisavam e que o mundo precisava. Me impressiona muito o seu estilo de diálogo com muitos países estrangeiros, incluindo seu posicionamento diante da complexa e frágil situação no Irã.E as mudanças na regulação do sistema financeiro?Não estou seguro de que seja o produto final. Temos mais um arcabouço do que o provável produto final. O que me agrada neste arcabouço é que eles estão tentando ser cuidadosos, enquanto na Alemanha e em boa parte da Europa o desejo é apenas de regular mais pela vontade de regular mais. Não é a coisa certa de se fazer, e acho que os Estados Unidos estão sendo mais cuidadosos com essa questão.Quais são as principais lições da crise?Esta é a sétima crise que acompanho profissionalmente. A primeira foi a crise da dívida latino-americana, em 1982. O que tenho a dizer é que algumas coisas boas podem resultar de toda e qualquer crise. Nesta agora, acho que teremos como consequência uma economia mundial mais equilibrada entre o consumo dos Estados Unidos e a poupança da China. Aliás, essa foi a primeira "crise Facebook (site de relacionamentos)". Eu quero dizer que a disseminação da informações fez com que 6 bilhões de pessoas tivessem fortes opiniões sobre a crise, e eu penso naquela grande frase, de que um pedaço de informação é mais perigoso do que nenhuma. Foi de fato uma crise terrível, mas houve muito exagero. Muita gente estava convencida de que seria como nos anos 30, o que é ridículo. Era fácil de se prever que os países teriam a reação, em termos de política econômica, que eles tiveram.O que o sr. acha do fato de que a ideia dos Brics, criada pelo sr., tenha sido assumida pelos próprios governos desses países, que formaram um grupo?Algumas pessoas me perguntam se eu acho que eles teriam formado o grupo, se eu não tivesse pensado na sigla. Não sei se o fariam, talvez não arrumassem uma desculpa para isso. Na verdade, penso coisas contraditórias sobre o tema. Não acho que seja um grupo para o qual faça sentido se reunir em bases permanentes. Qual seria o objetivo? Mas todos os Brics deveriam ser parte de um G-7 ou G-8 mais efetivo e ter mais poder de decisão em um FMI e um Banco Mundial reformados. E até que isso aconteça, acho que faz bastante sentido que os Brics se reúnam entre si, separadamente. É quase como uma teoria dos jogos geopolítica. Então, como um desenvolvimento temporário, é perfeitamente sensato, mas não faz sentido numa base permanente.Outros países emergentes não deveriam ser incluídos nos Brics?Há cerca de quatro anos, quando eu frequentemente era perguntado sobre isso, dizia que, para ser considerado um Bric, o país teria que já representar 5% do PIB mundial ou teria de se acreditar que, na próxima década, ele teria uma forte chance de chegar a esses 5%. Acho que, fora dos quatro Brics, isto é muito, muito difícil. Então, apesar de que há algumas coisas excitantes em relação à Indonésia, Turquia, talvez até Nigéria e Irã, esses países não têm a menor chance de se tornar tão grandes na próxima década. Pessoalmente, como o sr. se sente como criador da expressão Brics?Orgulhoso, mas também embaraçado.Embaraçado?Eu jamais sonhei que seria tudo isso; é embaraçoso. Sou apenas um cara qualquer de Manchester que gosta de futebol.Por falar em futebol, o sr. também tem previsões para a Copa do Mundo na África do Sul?Espanha ou Brasil, parece. Quem sabe a Inglaterra. E pode me cobrar depois estas projeções.

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