Brasil pode elevar exportação à Rússia

Reação do presidente russo ao bloqueio econômico dos Estados Unidos e da Europa abre as portas do país às vendas brasileiras

Jamil Chade e Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h03

O presidente russo, Vladimir Putin, decidiu responder às sanções da Europa e dos Estados Unidos e impôs restrições à importação de produtos agrícolas de qualquer país que tenha aderido ao bloqueio contra Moscou por causa da crise na Ucrânia. A medida aprofunda a crise entre Ocidente e russos, mas abre as portas para um aumento das exportações brasileiras.

Ontem, o governo russo ordenou que diferentes ministérios façam uma relação de todos os bens agrícolas e matérias-primas importados. A sanção será válida por um ano. Diante da constatação de que a medida também representará uma alta no preço de alimentos no mercado doméstico russo, o Kremlin decretou que o governo vai adotar "medidas" para impedir a inflação de preços.

A lista dos produtos que sofrerão sanções ainda não foi definida. Mas incluiria carnes, frutas e legumes. Segundo o decreto russo, existe "interesse nacional" em estabelecer essas sanções. No início do ano, os russos já haviam banido as importações de carne suína da Europa.

Ontem, o diretor de Vigilância Sanitária da Rússia, Sergei Dankvert, disse em entrevista à agência de notícias russa Interfax que o país deverá permitir o aumento das exportações de carnes e laticínios do Brasil. Nos últimos dias, depois de anos de debates, os russos passaram a reconhecer os certificados sanitários de frigoríficos brasileiros. Segundo Dankvert, cerca de 20 unidades que antes não podiam, desde 2012, embarcar carne de frango poderão realizar exportações. Além disso, cerca de 20 unidades fornecedoras de carne bovina, que estavam impedidas de exportar desde 2013, também poderão embarcar seus produtos.

A Rússia é o segundo maior destino para produtos agrícolas europeus, com um comércio de 2 bilhões. As importações de produtos americanos chegariam a 1 bilhão, incluindo matérias-primas, e o valor do comércio passaria à marca de 12,2 bilhões.

Alívio. Para a economia brasileira, a possibilidade de elevar as receitas de exportação veio num momento em que a balança comercial dá sinais de fraqueza e é bem-vinda. A expectativa do mercado segundo o último relatório Focus, do Banco Central, divulgado na segunda-feira, é que o superávit neste ano seja de apenas US$ 2 bilhões.

"A princípio, o Brasil deverá ser beneficiado. Na área de commodities, o País exporta quase os mesmos produtos que os Estados Unidos", afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "As carnes deverão ser mais impulsionadas porque boa parte da safra de soja já foi embarcada." Além do Brasil, a Rússia deve importar carne de outros sul-americanos, como Equador, Chile e Argentina.

A relação comercial entre Brasil e Rússia é pequena. No primeiro semestre, a economia russa foi apenas a 15.ª compradora de produtos brasileiros. A exportação somou US$ 1,6 bilhão, ou apenas 1,51% do total.

"Houve uma retomada forte dos russos", diz Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Segundo ele, a exportação de carne de frango para a Rússia pode passar de 60 mil toneladas por ano para cerca de 200 mil. No passado, a economia russa chegou a importar 300 mil toneladas do Brasil por ano. / Com Reuters

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