Nicholas Kamm/AFP
Nicholas Kamm/AFP

Brasil pode ser alvo de Trump, alerta ex-presidente de tribunal da OMC

Segundo James Bacchus, um dos nomes mais respeitados do comércio mundial, Brasil pode ser próximo da lista de 'bullying' de presidente Donald Trump

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 17h05

GENEBRA - Depois de negociar com México e Canadá, o presidente Donald Trump está convencido de que sua estratégia de fazer bullying com seus parceiros comerciais funciona e o Brasil pode ser o próximo na lista. O alerta é de um dos nomes mais respeitados do comércio internacional, o americano James Bacchus.

Ex-deputado no Congresso pelo Partido Democrata, Bacchus assumiu o cargo de juiz do Órgão de Apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC) nos anos 90. Em 2001, ele se transformou no primeiro americano a ocupar o cargo máximo e a presidir o que se transformaria numa espécie de Supremo Tribunal do comércio mundial.

Em entrevista ao Estado, Bacchus comentou o comportamento de Trump que, na segunda-feira, 1º, criticou a relação comercial com o Brasil e Índia. “O Brasil é outro caso. É uma beleza. Eles cobram de nós o que querem”, disse o presidente. “Se você perguntar a algumas empresas, elas dizem que o Brasil está entre os mais duros do mundo, talvez o mais duro. E nós não os chamamos e dizemos 'vocês estão tratando nossas empresas injustamente, tratando nosso país injustamente'”, afirmou Trump.

“A renegociação do Nafta legitimou a prática de fazer bullying de Trump e ele passou a ter a visão de que isso funciona”, disse Bacchus. “Infelizmente, outros países permitiram que ele usasse essa prática”, disse, numa referência ao México e Canadá.

“Ele (Trump) agora quer fazer bullying neles também”, disse o ex-juiz, em uma referência ao Brasil e Índia. “Ele está sinalizando que para isso com outros e eles (Brasil e Índia) serão os próximos”, alertou.

“Táticas de bullying e intimidação política pelos EUA nos conselho da OMC sejam repetidas e outros governos pensarão que terão de agir da mesma forma em retaliação e isso vai minar a cooperação internacional, que é a base da OMC”, alertou.

Na OMC, o orgão que era presidido por Bacchus está sendo também alvo de ataques por parte dos americanos. Desde o ano passado, a Casa Branca tem impedido a nomeação de juízes para a corte suprema, levando o orgão a ver uma redução do número de seus membros. De sete juízes, a entidade agora conta com apenas três e, em 2019, poderia deixar de funcionar.

“A questão toda aqui é a deferência que os americanos queriam receber da OMC”, disse Bacchus. “Setores americanos que não conseguiam competir no mercado internacional tentaram obter essa situação. Mas não tiveram sucesso. Nenhum outro país da OMC aceitou dar esses privilégios aos americanos”, constatou.

“Os EUA criticam decisões do orgão que eles mesmos aceitaram sua criação. Estamos focados na consternação dos EUA ao perder essas disputas. Mas considere outra possibilidade, que seria de uma decisão favorável. Ai teríamos 163 membros da OMC indo contra o orgão de apelação, e com razão”, apontou.

“Os EUA não são os únicos no mundo. Acredito que é um país excepcional e estou lutando para recupera-lo. Mas não somos os únicos povos do mundo”, disse.

“Temo que, ao mostrar um exemplo ruim para o mundo, o restante dos países sinta que devem repetir o que os americanos fazem”, alertou. “Isso está já ocorrendo na questão das tarifas e da política olho por olho. Os EUA estão impondo regras ilegais contra outros países e de forma unilateral. E, em retaliação, outros governos também estão impondo retaliações e violando as regras da OMC”, disse.

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