Clayton de Souza|Estadão
Clayton de Souza|Estadão

'Brasil pode ter errado a mão na regulação bancária', diz economista

Presidente do Insper Marcos Lisboa questionou se País criou regras em demasia que levaram a elevada concentração do setor e dificultaram o surgimento de bancos pequenos e médios

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2018 | 12h49

O economista e presidente do Insper, Marcos Lisboa, afirmou nesta sexta-feira que é hora de reavaliar se o Brasil não errou a mão na regulação bancária e criou regras em demasia que levaram a uma elevada concentração do setor e dificultaram o surgimento de bancos pequenos e médios, disse durante evento que discute o risco sistêmico. Lisboa ressaltou que é "discutível e questionável" se o País deveria conceder limite de garantia de depósitos ao sistema bancário equivalente ao que tem os Estados Unidos, economia de renda muito mais alta.

A regulação bancária no Brasil pode ter "ficado demasiadamente cara e ineficaz", afirmou o economista. "É hora de reavaliar se na tentativa de se evitar a retomada do desastre dos anos 90 não tenhamos errado na mão na regulação", completou. Lisboa destacou que a análise dos balanços dos bancos brasileiros revela um paradoxo: eles não ganham dinheiro no crédito, como deveria ocorrer com os bancos, mas sim com seguro, previdência, fundos e prestação de serviços. "Todos estão infelizes no Brasil com o desenho regulatório."

Lisboa ressaltou que o Brasil, historicamente, teve sérios problemas do sistema financeiro no passado. Ele mencionou a crise dos anos 90, quando quatro dos dez maiores bancos do País quebraram ou enfrentaram "graves dificuldades", precisando de socorro do governo. "Não foi uma boa experiência." Ainda ao falar de crises bancárias, o economista ressaltou que o Brasil teve o "fracasso dos bancos públicos", seja por concederem créditos ao controlador nos anos 90, seja pelos empréstimos mais recentes aos Estados. Este último fator, disse ele, ameaça retornar, o que é "incompreensível".

Em uma crise bancária, Lisboa ressaltou que a preocupação maior é que ela não se alastre e contamine os demais bancos e a economia. "As tentativas de conceder segurança exagerada pelos fundos garantidores que resgatam da crise bancos em dificuldades ou que protegem demasiadamente investidores, ainda mais investidores institucionais, podem resultar em risco moral", disse Lisboa. O economista observou que o Banco Central vem tentando avançar com a agenda de mudanças.

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Ao falar da economia, Lisboa disse que o Brasil tem problemas imensos para enfrentar nos próximos anos. "Há uma crise fiscal que só no governo federal deve chegar a R$ 250 bilhões por ano." Para fazer o ajuste, disse ele, será preciso um corte de despesas que "passa necessariamente por reformas estruturais", além de resolver a crise dos Estados, que não têm dinheiro para investimentos básicos em segurança e infraestrutura. "Estamos assistindo a degradação do patrimônio público pela nossa dificuldade de enfrentar os graves problemas."

Pelo lado positivo, Lisboa ressaltou que ao menos a sociedade está discutindo com mais vigor os problemas que estão postos há, ao menos 10 anos e, no caso da reforma da Previdência, há mais de 20 anos. Neste período, não se enfrentou as dificuldades e o governo tentou tomar medidas paliativas que não resolveram as questões. "Discutir a reforma da Previdência deixou de ser tabu. Reconhecemos que temos um problema fiscal."

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Lisboa afirmou que a retomada da economia tem sido modesta, mas os juros caíram para níveis históricos de baixa, mas a incerteza persiste. "Quem vai investir em um País se não sabemos a estrutura tributária do ano que vem? Se não sabemos se vai ter aumento de imposto, a volta da crise fiscal ou a volta da inflação? É claro que o País se paralisa na espera de maiores definições", disse ao falar das eleições deste ano.

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