Brasil pode ter perdido US$ 25 bi com derivativos

BIS diz que País não tem mecanismos de controle dessas operações e que crise revelou vulnerabilidades

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 00h00

O setor privado brasileiro pode ter perdido US$ 25 bilhões com apostas no mercado de derivativos no período mais intenso da crise financeira internacional. O alerta é do Banco de Compensações Internacionais (BIS), que ontem publicou seu relatório trimestral acusando a falta de mecanismos de controle dessas atividades no Brasil e alertando que a recessão mundial revelou "novas vulnerabilidades" do País e da região. Para a entidade, o continente estava de fato melhor preparado para enfrentar a crise que no passado e a recessão teve um impacto menor que turbulências no passado. Mas a região não conseguiu evitá-la e agora precisa se confrontar com novos desafios de regulação. Para o BIS, "riscos consideráveis" ainda existem para a América Latina diante da retração da economia mundial. Há menos de um mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou os empresários que operaram no mercado de derivativos de "trambiqueiros" e terem contribuído em trazer a crise para o Brasil. O BIS aponta que o mercado de derivativos caiu no segundo semestre pela primeira vez desde 1998, acumulando negócios de US$ 592 trilhões no mundo todo. Mas, diante da maior tolerância ao risco nos últimos meses, o banco já vê uma retomada dos índices. No lugar de acusar os empresários, o BIS alerta que o Brasil não tinha os mesmos mecanismos de controle como os que foram adotados no Chile ou na Colômbia para evitar esses prejuízos de empresas nacionais. O BIS apela para que as autoridades pensem em novas regulamentações para lidar com esse tipo de transação e confirma que o prejuízo das empresas brasileiras contribuiu para a volatilidade do real nos meses que se seguiram à eclosão da crise.PREJUÍZO Empresas como a Aracruz, Sadia e Grupo Votorantim se aproveitaram do que parecia uma reduzida volatilidade do real para apostar contra a desvalorização da moedas frente ao dólar, vendendo opões de moeda em mercados offshore. Mas a crise trouxe uma fuga de capitais do País e, com ele, uma depreciação do real a partir de setembro. Isso acabou gerando perdas de que, segundo o BIS, poderão somar até US$ 25 bilhões para a economia nacional. A entidade admite que os números oficiais sobre esses prejuízos ainda não foram divulgados. O governo estima que 200 empresas nacionais acabaram se envolvendo nesses esquemas e hoje somam perdas. O mesmo comportamento adotado pelas empresas brasileiras também foi registrado em outros países latino-americanos. No México, as perdas foram de US$ 4 bilhões no quarto trimestre de 2008 com as apostas em derivativos. Só a Comercial Mexicana perdeu US$ 1,1 bilhão e pediu concordata. A Gruma, maior empresa de farinha de milho do mundo, também acabou atingida. O banco ainda alertou para a falta de transparência nos mercados onde empresas registraram essas perdas. "A complexidade desses negócios e o fato de que eles eram feitos de forma privada mostram a falta de transparência nesses mercados, já que muitas empresas não revelaram informações sobre suas posições no mercado de derivativos", alertou o BIS. Na avaliação da entidade, há uma percepção de que essas perdas podem representar um risco sistêmico para a região. Para o BIS, "novas vulnerabilidades" foram descobertas na América Latina com a crise. A volatilidade que se seguiu com o real foi importante, já que as empresas prejudicadas precisaram fechar suas posições em dólares. No Chile e Colômbia, exatamente pela existência de leis que limitavam as operações de empresas no mercado de derivativos, a volatilidade das moedas locais não foi tão intensa como no Brasil. O banco alerta que o Brasil precisa tirar pelo menos duas lições dessa perda. A primeira é a de garantir que os riscos assumidos por empresas no mercado são entendidos tanto pelo setor privado quanto pelas autoridades. Outra lição é que, se os governos reduziram suas dívidas e vulnerabilidades externas, a crise revelou que um setor público forte "não conseguiu compensar as vulnerabilidades do setor privado".

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