Brasil precisa arrumar contas, diz FMI

Recomendação faz parte do Panorama Econômico Regional da América Latina, que ainda sugere a redução dos empréstimos subsidiados pelo Tesouro e manutenção dos juros pelo BC

Rolf Kuntz, enviado especial , O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 22h44

WASHINGTON - Sem espaço para incentivos, o governo brasileiro deve dar prioridade à arrumação das contas e à recuperação da confiança na política orçamentária, sugere o Fundo Monetário Internacional (FMI). 

A recomendação inclui a redução dos empréstimos subsidiados pelo Tesouro e repassados pelos bancos públicos, como o BNDES. Além de onerar o Tesouro, essas operações com frequência beneficiam empresas capazes de se financiar no mercado, como a Petrobrás, observou o economista Krishna Srinvasan, diretor adjunto do Departamento do Hemisfério Ocidental. O comentário foi feito nesta sexta-feira, durante a apresentação do Panorama Econômico Regional da América Latina. 

No Chile e no Peru, países “com finanças públicas excepcionalmente fortes”, estímulos fiscais “são defensáveis”, segundo o relatório. Os governos de Brasil, México e Uruguai devem buscar uma “consolidação gradual” das finanças públicas. Ao comentar essa passagem, o economista mudou a linguagem. Segundo ele, “quanto mais rápido o ajuste, tanto melhor”, se for possível evitar danos colaterais.

O comentário ainda incluiu uma referência ao uso de receitas especiais - como dividendos e bônus de concessões - para melhorar o balanço. Será preciso, disse o economista, consolidar as contas brasileiras sem recorrer a receitas desse tipo. 

Juros. O Fundo também é contrário à redução dos juros pelo Banco Central (BC), porque ainda se espera no Brasil uma inflação elevada, com pouca ociosidade na economia, “pressões reprimidas de preços administrados” e inércia inflacionária decorrente da indexação. Em outros países - com “expectativas inflacionárias bem ancoradas” -, os BCs podem usar políticas monetárias mais frouxas para atenuar choques e sustentar a demanda.

As políticas foram há pouco tempo suavizadas no Chile, no Peru e no México, enquanto o BC da Colômbia elevou os juros e o do Brasil mantém a taxa em 11% desde abril. O relatório também menciona as operações de swap cambial - semelhantes a transações no mercado futuro - feitas pelo BC brasileiro para conter a elevação do dólar e seus efeitos inflacionários. No começo de outubro, o saldo dessas operações estava em US$ 98 bilhões. 

A recomendação de investimentos em infraestrutura e educação, dirigida a todos os latino-americanos, aparece também no relatório sobre a economia regional, depois de ter sido apresentada em outros documentos e repetida por vários técnicos do FMI. Mas a sugestão tem peso especial no caso do Brasil, destacado como um país sem competitividade, baixa confiança empresarial, investimento insuficiente e gargalos no lado da oferta. 

A economia de toda a região perdeu impulso e o quadro atual, com “desaceleração persistente condições de oferta apertadas, requer um claro foco em reformas estruturais para aumentar a produtividade e crescimento potencial”, segundo o relatório. 

O FMI projeta para a América Latina crescimento de 1,3% em 2014, o segundo mais baixo em 12 anos, e 2,2% em 2015. A estimativa de expansão para este ano é 1% menor que a apresentada há seis meses. A projeção para o próximo ano é 0,75% inferior à de abril. 

Os maiores cortes foram nas previsões para Argentina, Brasil, Peru e Venezuela, mas para a economia peruana ainda se calcula crescimento de 3,6% neste ano e 5,1% em 215. Para o Brasil, 0,3% e 1,4%.

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