Brasil prepara emissão em yuan de bônus Panda

Em busca de novos investidores para ampliar a demanda por seus títulos de dívida, empresas e bancos brasileiros devem estrear em 2012 o quase inexplorado mercado de bônus corporativos denominados em yuan, ou renminbi como também é chamada a moeda chinesa, e cuja demanda potencial para essas emissões é calculada entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões.

FÁBIO ALVES, Agencia Estado

16 de dezembro de 2011 | 07h18

Conhecidos como bônus Panda, se emitidos na China continental, ou bônus Dim Sum (o pastelzinho chinês), se emitidos em Hong Kong, esses papéis têm uma base de investidores em rápida expansão, não somente pelo volume de recursos disponíveis pelos chineses para aplicar, mas também pela crescente procura pelos investidores globais por ativos denominados na moeda da segunda maior economia mundial como forma de compensar a atual fraqueza do dólar e do euro e o viés de baixa nos ratings de emissores soberanos e privados de países desenvolvidos.

Entre os emissores de países emergentes, o banco russo JSC VTB Bank foi o primeiro a captar na China com uma operação, em dezembro do ano passado, de 1 bilhão de yuan, ou o equivalente a US$ 150 milhões, com vencimento em 2013. Já na America Latina, a empresa de telefonia celular mexicana America Movil está prestes a ser o primeiro emissor a acessar esse mercado com a venda de bônus Dim Sum. Será uma emissão de 1,9 bilhão de yuan, ou o equivalente a US$ 300 milhões, com vencimento em 2016. A empresa realizou na semana passada uma série de apresentações para investidores interessados na operação, que recebeu rating A2 pela agência de classificação de risco Moody''s.

"Eu acho que em 2012 esse mercado vai abrir para emissores brasileiros", disse Alexei Remizov, diretor-gerente de mercado de capitais do banco HSBC em Nova York. Isso porque, segundo Remizov, deverá haver ao longo do próximo ano um aperfeiçoamento de instrumentos de derivativos, como os contratos de "swaps", que permitam às empresas ou bancos que façam uma emissão em moeda chinesa protegerem-se do risco cambial, com um "hedge" em dólar, por exemplo. Até o momento, a falta de contratos "swaps" eficientes para eliminar o risco cambial, na opinião do executivo do HSBC, inibiu as operações de bônus Panda ou Dim Sum de emissores brasileiros. Sem esses instrumentos, seria apenas possível a emissão por empresas ou bancos que já tivessem um "hedge" natural, ou seja, receitas ou despesas em yuan, afirmou Remizov.

As primeiras emissões brasileiras em yuan deverão ser pequenas, de no máximo US$ 300 milhões, segundo Remizov. "Qualquer emissão terá como objetivo ser uma colocação estratégica, isto é, para abrir mercado", disse ele. Além disso, a demanda atual dos investidores chineses é para papéis com prazo de dois a cinco anos.

Segundo o diretor da Bradesco Securities U.K., João Carlos Zani, o perfil mais provável das primeiras emissões brasileiras em yuan com demanda de investidores chineses será aquelas que conseguirem um rating de grau de investimento na escala global das agências de classificação de risco, ou seja, com rating acima de BBB- ou Baa3.

"Acredito que a demanda será maior para as empresas exportadoras ou produtoras de commodities, que podem estar olhando mais esse mercado de dívida em yuan, e para operações não superiores a três anos", explicou Zani. Para ele, o próprio crescimento das relações comerciais entre Brasil e China vai fomentar o mercado de dívida em moeda chinesa para aqueles emissores brasileiros com fluxo de negócios na China, o que eliminaria o risco de exposição ao yuan, inclusive reduzindo o custo de captação por não ter de contratar instrumentos de "hedge", caso as empresas optem por esta estratégia, como os contratos de swap cambial.

No mercado comenta-se que a Vale poderia ser um candidato natural para estrear neste mercado entre os emissores brasileiros. A mineradora tem rating A- pela agência de classificação de risco Standard & Poor''s. No terceiro trimestre deste ano a China foi responsável por 35,4% da receita operacional da empresa. Procurada, a mineradora não se manifestou sobre o assunto.

A emissão da mexicana America Movil, por exemplo, teve como objetivo financiar as compras da empresa de bens e serviços denominados na moeda chinesa, segundo o diretor-gerente da área de finanças corporativas da agência de rating Moody''s, Brian Oak. Em relação a outros emissores latino-americanos, ele afirmou que poderá haver interesse de outras companhias que tenham negócios e transações comerciais com a China em emitir bônus em yuan. "Mas isso (emissão em papéis em moeda chinesas) não seria tão relevante para os players (participantes) domésticos", disse Oak

No caso de emissões por parte de instituições financeiras, a demanda dos investidores chineses ainda não é clara. "Não vejo a captação por parte de bancos sem uma estratégia definida no crescimento de sua base de investidores; esse mercado de bônus Dim Sum estaria mais focado para bônus corporativos num primeiro momento, isto é, de empresas com as melhores notas de classificação de risco, especialmente aquelas com ratings A- ou A3", explicou Zani, da Bradesco Securities, em entrevista do seu escritório em Londres.

A Bradesco Securities deverá obter até o final deste mês as licenças do governo chinês para começar a operar em Hong Kong na distribuição de títulos de renda fixa e também de ações, num escritório que terá, inicialmente, três funcionários, mas que no curto prazo poderá crescer dependendo das condições de mercado, podendo chegar até um total de seis pessoas, informou Zani. A abertura do escritório, segundo ele, poderá facilitar o acesso de emissores brasileiros aos bônus em yuan ao se criar um canal de distribuição para esses títulos.

Segundo ele, a demanda dos investidores em todo o mercado de renda fixa em yuan tem superado em até 3 vezes o volume de oferta de papéis no mercado, o que dá uma ideia do potencial para colocação de bônus brasileiros. "Há, de fato, uma escassez de emissores no mercado chinês", disse.

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