Brasil quer data para concluir Rodada Doha a partir de 2014

Dilma diz que crise não pode ser 'biombo' para prorrogação de situação de desequilíbrio global no que se refere ao comércio internacional.

Pablo Uchoa, BBC

19 de junho de 2012 | 20h51

O Brasil quer estabelecer uma data de conclusão para a rodada de negociações de abertura comercial conhecida com Rodada Doha, quando o processo for retomado, a partir de 2014.

Falando a jornalistas em Los Cabos, durante a reunião do G20 - o grupo das principais economias avançadas e emergentes do planeta -, a presidente Dilma Rousseff disse que a Rodada Doha "reconhecia a existência de desequilíbrios e colocava na pauta que havia necessidade de se abrir negociações entre os países para recompor essas situações de desequilíbrio".

Entretanto, a presidente lembrou que a retomada do processo tão cedo vai contra "interesses muito grandes" e encontra "muita resistência" dentro do G20.

"Na crise de 2008 e 2009, nós acertamos uma prorrogação da situação vigente, sem ficar discutindo esses desequilíbrios. O que estamos propondo é que não dá mais para ficar prorrogando, porque é como dar um cheque em branco, é como se você não reconhecesse a existência de desequilíbrios."

Na esteira do fracasso das negociações de liberalização do comércio mundial, em 2008, os países do G20 concordaram em não levantar novas barreiras protecionista e remover aquelas erguidas no início da crise. O prazo para esse congelamento do status quo vigora até o fim de 2013.

Dilma deu a entender que durante as negociações do G20, aqui em Los Cabos, alguns países desenvolvidos quiseram incluir uma cláusula para estender a situação até o fim de 2014 ou até 2015 - mas a mudança não vingou e o texto da declaração final, divulgada na terça-feira, mantém o prazo do final de 2013.

"Estamos propondo que em 2014 se reabra a Rodada Doha e se dê prazo para fechar, para evitar prorrogamentos de interesses muito grandes de países que são privilegiados por subsídios agrícolas, por práticas de competição indevidas no momento atual", disse Dilma.

"A crise não pode ser biombo para a prorrogação de uma situação de desequilíbrio global no que se refere ao comércio internacional."

A presidente defendeu que "já deu tempo suficiente para as coisas baixarem (na crise global) e todo mundo sabe quais são os desequilíbrios globais."

"Temos de discutir Doha, porque se não discutir, se só prorrogar, aí não tem Doha, "never more"."

'Free lunch'

Segundo argumento da delegação brasileira, os países ricos registram na Organização Mundial do Comércio (OMC), fórum das negociações, tarifas mais altas que praticam. Assim, sem violar regras, podem subir e baixar as tarifas.

Para Dilma, o adiamento das negociações de Doha beneficia "os países que não têm de acabar com os subsídios na área agrícola, que não têm de tratar de temas em toda a sua economia, que podem fazer sua política de desvalorização monetária, da moeda que quiserem".

"É extremamente vantajoso", queixou-se Dilma. "Trata-se de uma interessante forma de "free lunch", de lanche gratuito. Lanche não, almoço, ou jantar, se você quiser, ou café da manhã."

Dilma defendeu que, quando retomado, o processo não seja reiniciado do zero - a rodada começou em 2001 e deveria ser encerrada em 2006 -, mas leve em conta a experiência acumulada em sete anos de negociações.

"Tem gente que diz que a Rodada Doha não pode ser nos mesmos termos dos acordos anteriores. Perfeitamente. Outros não acham isso. Mas há que se retomar a Rodada Doha sem desconsiderar que fizemos uma série de avanços e que se parte do acúmulo e se modifica", opinou. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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