Sergei Karpukhin/Reuters
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Brasil sai lucrando, mas é alvo de fraudes na Rússia

Segundo analistas, parte das mercadorias que tem ingressado nas fronteiras do país com etiquetas do Brasil pode, na realidade, ser falsificada

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2014 | 02h05

Produtores e exportadores de carne suína do Brasil estão celebrando em 2014 vendas recordes para o mercado russo, onde registraram crescimento de 101,5% entre janeiro e novembro. Mas não são apenas eles os "vencedores" da disputa política envolvendo Moscou, Bruxelas e Washington, que resultou em sanções econômicas mútuas. De acordo com a consultoria SovEcon, especializada em mercados agrícolas, o Brasil é provavelmente hoje o maior fornecedor de alimentos da Rússia.

A estimativa foi revelada ao Estado por Andrey Sizov Jr., analista de mercados e diretor-presidente da consultoria. "O Brasil se tornou o maior fornecedor de carne da Rússia, o que o torna provavelmente o maior fornecedor de todo o setor alimentício do país", explicou.

De acordo com o analista, três fatores conjunturais resultaram na "promoção" dos produtores brasileiros em território russo: problemas veterinários que geraram o embargo das importações de carne suína da Europa; as retaliações aplicadas pelo Kremlin a setores da indústria alimentícia europeia a partir de agosto e, por fim, as sanções comerciais impostas por Estados Unidos, Europa e Austrália.

Os números são, de fato, impressionantes: entre janeiro e novembro, produtores brasileiros venderam US$ 766,3 milhões em carne suína para a Rússia - o equivalente 46% de toda a produção do segmento e a 61% do total da receita dos exportadores.

Substituição. Como produtores europeus de frutas, vegetais, leite e seus derivados seguem banidos do território russo, um total de US$ 9 bilhões em importações russas vem sendo transferido para países que não impuseram restrições econômicas a Moscou, em especial na América Latina, na Ásia e, em menor escala - por questões sanitárias - às ex-repúblicas soviéticas.

Segundo o ministro da Agricultura da Rússia, Nikolai Fyodorov, 100% dos produtos atingidos pelos embargos foram repostos por outras fontes, ainda que a Rússia tenha sido obrigada a pagar preços mais elevados em boa parte dos casos.

De acordo com cálculos da SovEcon, a inflação dos alimentos deve fechar 2014 em 14,5%, o dobro dos 7% registrados no ano passado. Só na carne suína o aumento foi de 27% - mais uma vez beneficiando produtores brasileiros.

Falsificação. Analistas advertem, entretanto, que parte das mercadorias que tem ingressado nas fronteiras da Rússia com etiquetas do Brasil pode, na realidade, ser falsificada. Isso acontece porque produtores de países europeus como a Espanha, sob embargo político, ou Macedônia, Sérvia, Lituânia e Bielo-Rússia, sob embargo sanitário, estariam mascarando seus alimentos sob selos "Made in Brazil".

"É usualmente no Daguestão e Chechênia que um produto se transforma em 'brasileiro', 'sul-africano' ou até mesmo 'russo'", afirmou o analista de mercado Dmitry Potapenko, sócio da consultoria Management Development Group, em entrevista ao jornal moscovita Kommersant. / A.N.

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