Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Brasil, salve o clima!

Cumpriria ao País já ter reduzido o grau de ilicitudes na região Amazônica, ampliando nossa liderança

Pedro de Camargo Neto*, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 04h00

Faltou ambição e sobrou esperteza ao governo federal no recente comunicado sobre a Contribuição Nacional Desenvolvida (NDC) sinalizando as metas de redução de emissões de carbono a serem apresentadas na COP-26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas a ser realizada em novembro de 2021 em Glasgow, Escócia. Os debates para a COP26 começaram no fim de semana passado com uma Conferência sobre Clima das Nações Unidas em modo virtual para a qual o Brasil não foi convidado.

É possível, porém não recomendável pela questão da credibilidade, alterar critérios e metodologia de cálculo para comparações entre valores de 2005 e as reduções futuras de emissões. Em especial para um país que continua a ter sua principal fonte de emissões de gases de efeito estufa atrelada ao desmatamento da Floresta Amazônica – desmatamento ilegal perante a legislação nacional. Insustentável, em relação a seus compromissos internacionais.

Propor aceitar antecipar a data do compromisso de zerar emissões líquidas mediante desenxabida compensação financeira desmonta a posição de liderança que o Brasil vinha desenvolvendo. O País é altaneiro e não negocia seu potencial de desenvolvimento. Ao contrário dessa equivocada proposta, deveria o Brasil pressionar o mundo a assumir maiores e antecipados compromissos. É o país do clima, e assim deve ser percebido pelo mundo.

Não foi por coincidência que a Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Clima foi realizada no Rio de Janeiro em 1992. Não é somente que a maior parte da Floresta Amazônica ocupa pouco menos da metade do território nacional. O Brasil é o país dos biocombustíveis, do primeiro carro a álcool, hoje o carro do combustível flexível, do biodiesel rapidamente ocupando espaço na matriz energética, da geração de energia com a biomassa. É o país das importantes usinas hidrelétricas, que colocava desde décadas atrás a geração de energia elétrica como renovável e limpa de emissões de carbono antes das pressões por este conceito. É o país da energia eólica, como pode ser observado hoje na Região Nordeste do País. E será também o da energia solar, até pela extensão e coordenadas geográficas no planeta.

O Brasil é o país da agricultura de baixo carbono, com enorme potencial para desenvolvimentos futuros na produção de alimentos em conjunto com a absorção de carbono no solo. É o país do Código Florestal, das florestas, nativas, plantadas, regeneradas e manejadas dentro de modernos conceitos de sustentabilidade e absorção de carbono. É o país que maior capacidade tem de promover a fotossíntese produzindo a necessária energia de múltiplas maneiras para a construção da futura sociedade. Estamos na frente e, assim, precisamos continuar exigindo prioridade e compromisso de todos, pois o progresso científico e sua implementação assim exigem.

É o país para liderar a questão climática. Maior a ambição em reduzir as emissões de carbono, mais energia renovável terá de ser consumida via biocombustíveis. Cumpriria ao Brasil pressionar os países desenvolvidos a ajustarem seu modo de vida e consumo de energia, pois claramente isso se reflete no aquecimento global e na total preponderância das emissões. Pressionar países em processo de desenvolvimento para que ajustem o rumo olhando o clima e o futuro. Cumpriria ao Brasil já ter reduzido o grau de ilicitudes na região Amazônica, ampliando nossa liderança – clara obrigação não cumprida pelos poderes públicos, o que cada dia mais prejudica a sociedade, em especial a agropecuária.

A remuneração financeira, prevista no Acordo de Paris e infelizmente ainda em processo de negociação, promovendo transações entre países que apresentem déficits em seus compromissos de redução de emissões, tem tudo para promover o Brasil, não por negociação de antecipação de metas, conforme agora apresentado, e sim pela liderança em pressioná-los a realizarem as transformações necessárias para todos. O Brasil é líder no clima!

*É PRODUTOR RURAL

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