Brasil submergente

Opinião

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2014 | 02h05

Húbris é uma palavra esquisita de origem grega que denota um conceito bastante conhecido: a falta de modéstia, a presunção, a arrogância, o excesso de confiança, o orgulho desmesurado. Há pouco mais de dois anos, o Brasil foi considerado a sexta maior economia do mundo, superando o Reino Unido. A reação do governo brasileiro foi de incontida euforia, como se tivéssemos chegado lá. O ministro Mantega, que não é famoso pelo seu pessimismo, não deixou por menos e declarou que o Brasil seria a quinta maior economia antes de 2015 (ou seja, agora).

Não deu muito certo. Pelo mesmo conceito de PIB usado à época, em 2014 o Brasil deverá fechar o ano como a nona economia do planeta. A rigor, na verdade, isto diz muito pouco. Não havia nenhum sentido na comemoração de antes. Ser a sexta maior economia do mundo não tinha maior significado. Em larga medida, esse enganoso avanço na classificação internacional se deveu à valorização do real em relação ao dólar. Entre 2003 e 2011, a cotação média da moeda americana despencou de R$ 3,08 para R$ 1,67, o que equivale a uma valorização do real de nada menos que 84%. Se medimos o PIB em dólares e o dólar vale menos, o PIB aumenta mesmo. Comemoramos com incontinência verbal um gol de mão. De mais a mais, o Brasil é grande, não há novidade, mas o que importa é se o nível de vida dos brasileiros evolui a contento. O valor absoluto é uma fatalidade geográfica e pouco conta. Se, por algum passe de mágica, todos os países da África se unissem em um só país, o PIB conjunto seria de quase US$ 2 trilhões, um dos maiores do mundo - mas a vida dos africanos não melhoraria em nada por causa disto. Ao contrário do Brasil, que imitou certos insetos e quis se passar por um país maior do que é para intimidar adversários, a China deliberadamente desprezou a previsão recente de que vai superar a economia americana agora em 2014. Aos chineses convêm a modéstia e a discrição.

Para escapar da armadilha de medir produtos de países diferentes com a métrica enganadora do dólar que oscila, o Banco Mundial gastou muito tempo e dinheiro compilando informações e desenvolvendo uma metodologia específica que permita a comparação dos países a partir da paridade do poder de compra de suas moedas. Este método dá uma ideia mais correta acerca do nível de bem-estar da população e do tamanho relativo das economias. Um sumário desta pesquisa (com 93 páginas) acaba de ser publicado com informações comparativas de 2011 para 199 países. A versão completa será lançada em julho próximo. No conceito de paridade de poder de compra, o PIB brasileiro em 2011 foi de US$ 2,82 trilhões, cerca de um quinto do PIB chinês e menos da metade do PIB da Índia. Mais importante é verificar o nosso posicionamento em termos de produto per capita. O Brasil tem o 80.º maior PIB per capita do mundo, com US$ 14.639,00. Ficamos atrás de países como o Chile (US$ 20.216,00), México (US$ 16.377,00), Panamá (US$ 15.369,00), Uruguai (US$ 17.343,00) e Venezuela (US$ 16.695,00). Vamos combinar que é cedo para comemorar. Não somos ricos. Não chegamos lá. Lá ainda está longe.

Para estimular nosso comedimento e evitar a fútil celebração de que viramos uma potência mundial, é útil também recordar que o Brasil deverá crescer em 2014 algo como a metade do estimado para o crescimento da economia mundial (1,8% ante 3,6%, na estimativa do FMI). No ano passado também ficamos para trás (2,3% ante 3%). Da mesma forma nos últimos três anos (6,2% aqui e 10,4% no mundo). Nos últimos cinco anos? Acertou, perdemos também (13,8% versus 15,7%). Mas será que nem nos últimos dez anos crescemos mais que a média mundial? Pois não crescemos. Acumulamos 44% de crescimento, menos que a expansão do conjunto das economias, 45%. Mas então temos pelo menos o consolo de que estamos prestes a decolar e deixar o mundo para trás? Não exatamente. A previsão do crescimento mundial para os próximos dois anos é de 7,6%, muito mais que os analistas brasileiros consultados pelo Banco Central antecipam para nossos tristes trópicos: modestíssimos 3,6% no biênio 2015-2016. Nêmesis, outra palavra estranha de origem grega, é a deusa que pune aqueles que tiveram sorte de forma imerecida e reagiram com arrogância (ou húbris) à boa fortuna. A julgar pelo caso do Brasil, ela parece ser implacável e vingativa. O Brasil é um tipo muito especial de economia emergente: somos um emergente que afunda no contexto internacional.

O debate que se aproxima, no contexto da eleição presidencial, oferece uma alternativa rara para traçar um diagnóstico e encaminhar propostas de solução. O Brasil não é rico e injusto; é só injusto. Combater as mazelas sociais através de políticas de redistribuição tem eficácia limitada. A melhor estratégia para combater as injustiças sociais é acelerar o crescimento. Isto começa por rejeitar três abordagens simplistas, a saber: (i) acreditar que a corrupção é a única razão das nossas agruras e que a alternância de poder terá o condão de alterar as coisas; (ii) atribuir nosso enrosco a uma mera questão de eficácia na gestão administrativa; e (iii) imaginar que o corte de gastos de custeio possa gerar os recursos necessários para alavancar os investimentos em infraestrutura e, desta forma, acelerar o crescimento. É preciso esmagar a corrupção, melhorar a eficácia da máquina administrativa e cortar os excessos. Mas o crescimento acelerado está na dependência da capacidade de o novo governo costurar um pacto político que abra espaço para reformas mais profundas que alterem o padrão de gastos do setor público. Não será fácil. Nossos problemas não são modestos.

*Luís Eduardo Assis é economista, foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP. E-mail: luiseduardoassis@gmail.com.

 

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