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Brasil tem de se proteger

Ninguém se animou no mercado financeiro internacional com o anúncio do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que havia conseguido US$ 430 bilhões para conter em parte a crise da dívida na zona do euro, que entra no seu terceiro ano sem solução à vista. Não é que os investidores não confiem no fundo. Eles não estão é convencidos de que esse dinheiro será suficiente para evitar uma nova Grécia.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h07

Até agora, o FMI e a nova direção do Banco Central Europeu (BCE) têm apenas adiado soluções que não dependem deles, mas dos governos dos países da zona do euro. A solução mais indicada por quase todos, a criação do Eurobonds, que incorporariam os títulos soberanos dos 17 países do bloco, foi rejeitada pela Alemanha.

Em vez de alívio, o que houve neste fim de semana foi mais tensão com o rebaixamento da nota da Espanha pela agência de classificação de risco Standard & Poor's - a nota do país caiu de A para BBB+. Com esse movimento, a agência sinaliza que a Espanha vai precisar de socorro, não só do FMI, mas dos governos da zona do euro também.

A Standard & Poor's vai mais longe, criticando a forma pela qual os espanhóis estão reagindo com medidas de austeridade fiscal sem crescimento econômico.

A Espanha reativa a crise financeira na zona do euro que havia sido atenuada pelos empréstimos subsidiados do Banco Central Europeu, afirmavam as agências internacionais na sexta-feira.

"A economia da Espanha enfrenta uma crise de enormes proporções. Os números são terríveis para qualquer um, terríveis para o governo", disse na sexta-feira o ministro das Relações Exteriores do país, Jose Manuel Garcia-Margallo, em entrevista a uma rádio. Ele se referia à taxa de desemprego, que subiu para 24,44% no primeiro trimestre do ano.

Exemplo da Grécia. O FMI já enviou duas missões técnicas a Madri este ano - a primeira, entre os dias 1 e 2 de fevereiro, e a segunda, de 12 a 15 de abril -, e deixou vazar para a imprensa a informação de que os bancos espanhóis não têm capacidade de enfrentar sozinhos os seus problemas.

Provavelmente, a Espanha será levada ainda este ano a um programa do tipo troica (ajuda do FMI, do BCE e dos governos da zona do euro), como aconteceu com a Grécia, prevê um relatório divulgado por dois analistas do Citibank.

Só que, mesmo tendo uma dívida pública estimada pelo FMI de 79% do PIB, a Espanha é a quarta economia da União Europeia e seu sistema financeiro é incomparavelmente maior do que o da Grécia.

Títulos soberanos. A maioria dos investidores continuou se desfazendo de títulos soberanos da Espanha - e os mais ousados, que ainda compravam, estavam usando o empréstimo subsidiado do Banco Central Europeu, de 1 trilhão. Só os bancos espanhóis absorveram quase 300 bilhões.

O próprio BCE deixou de comprar títulos da Espanha e da Itália, argumentando que "não é esse o caminho". O caminho, num primeiro momento, é aumentar a liquidez, emitindo euros e oferecendo aos bancos, o que está tardiamente fazendo. É austeridade fiscal para voltar a crescer. Só não se sabe como.

A saída mais recomendada pelos economistas, e até mesmo pelo FMI e pelo BCE, a de emitir eurobonds, absorvendo a dívida total do bloco, foi vetada pela Alemanha, a maior economia do bloco. Quem errou que pague, dizem os alemães. Mas agora querem, por meio do FMI, que os países emergentes, que não têm nada com isso, ajudem a pagar a dívida europeia, entrando com mais da metade dos US$ 430 bilhões que levaram o caixa do fundo a dispor de US$ 700 bilhões.

Brasil que se proteja. O Brasil já deu um não para a ideia, até mesmo para os US$ 10 bilhões, simbólicos, sim, diante do valor pedido, mas que revelam um fato de extrema importância. Não pretende socorrer os países endividados da zona do euro porque está mais empenhado em se "proteger" do que "evitar" uma crise sobre a qual nada pode fazer.

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