Werther Sanatana/Estadão
Apenas as atividades de construção e agricultura tiveram crescimento da população ocupada no terceiro trimestre Werther Sanatana/Estadão

Brasil tem desemprego recorde de 14,6% no terceiro trimestre, aponta IBGE

Segundo a Pnad Contínua, 14,1 milhões de brasileiros estão sem trabalho; com flexibilização das medidas de isolamento, mais pessoas saíram em busca de emprego

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 09h30

RIO - Apesar da recuperação da economia no terceiro trimestre, o mercado de trabalho fechou mais 883 mil vagas, ao mesmo tempo em que a flexibilização das medidas de isolamento social para conter a covid-19 incentivou mais pessoas a procurarem trabalho. Com isso, a taxa de desemprego subiu para 14,6%, o maior nível desde 2012, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada naquele ano. 

Segundo economistas ouvidos pelo Broadcast/Estadão, o quadro é ligeiramente melhor na passagem de agosto para setembro, mas o cenário do mercado de trabalho ainda é de “fragilidade”.

Os dados, divulgados nesta sexta-feira, 27, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmaram, como esperado, que a taxa de desemprego aumentou. No trimestre de junho a agosto, ficou em 14,4% - os dados da Pnad Contínua são divulgados mensalmente, mas sempre para um trimestre móvel. A alta no desemprego já era esperada porque grande parte dos trabalhadores que perderam seus trabalhos, fossem formais ou informais, desistiu de procurar uma ocupação. Ou, por causa das medidas de isolamento social, ficaram em casa e evitaram procurar novas vagas.

Pela metodologia internacional das estatísticas de mercado de trabalho, seguida pelo IBGE, só é considerada desocupada a pessoa que tomou alguma atitude para buscar ativamente um trabalho. Donas de casa dedicadas apenas aos cuidados do lar e estudantes que optam apenas pelos estudos não são considerados desempregados, por exemplo.

Conforme a flexibilização gradual das medidas de isolamento, a partir de junho, mais trabalhadores voltaram, aos poucos, a procurar trabalho. Aqueles que não encontraram são considerados desocupados. Assim, o total de desempregados, de 12,791 milhões no segundo trimestre, saltou 10,2% no terceiro trimestre, para 14,092 milhões. Em um trimestre, são 1,302 milhão de desempregados a mais. O aumento deverá continuar, à medida que, com a reabertura da economia, mais trabalhadores voltem a procurar uma vaga.

“Talvez o auxílio emergencial tenha continuado favorecendo que as pessoas se mantenham fora da força de trabalho em setembro, mas no trimestre móvel até outubro, que captura mais ao menos a perspectiva de redução da parcela, o retorno deve ser maior e o desemprego deve subir com mais força”, disse João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos.

Ao garantir uma renda mínima para os trabalhadores informais, o auxílio emergencial permitiu, pelo menos parcialmente, que eles fizessem o isolamento social, deixando de sair para trabalhar nas ruas. Um trabalhador com carteira assinada que tenha tido seu salário reduzido, trabalhado de casa ou ficado com jornada reduzida continuou sendo considerado como empregado pelo IBGE. O trabalhador informal que ficou em casa passou para fora da força de trabalho.

Dada essa particularidade, o estrago da pandemia no mercado de trabalho é mais bem captado na taxa composta de subutilização da força de trabalho, espécie de taxa ampliada de desemprego, que considera também os trabalhadores que não procuraram uma vaga, mas gostariam de trabalhar, e aqueles que trabalham menos horas do que gostariam. No terceiro trimestre, esse indicador ficou em 30,3%, muito próximo dos 30,6% do trimestre móvel terminado em agosto, se mantendo em níveis recordes.

Na prática, são 33,179 milhões de brasileiros sem trabalho, contingente equivalente à população de Angola. Foi uma alta de 3,9% ante o segundo trimestre e um salto de 20,9% sobre o terceiro trimestre de 2019. Em um ano, 5,725 milhões de trabalhadores, o equivalente a toda a população da Finlândia, entraram nessa situação.

A migração de trabalhadores da situação em que gostariam de trabalhar, mas não estão procurando uma vaga, para o desemprego, à medida que essas pessoas comecem a sair de casa atrás de trabalho, não mudará o indicador como um todo. Por isso, alguns economistas dizem que o desemprego já existe, na prática. O crescimento da taxa nos próximos meses se dará apenas por uma questão metodológica.

Para reverter o quadro, seria preciso recuperar os postos de trabalho perdidos na crise, mas, conforme os dados do IBGE, o terceiro trimestre ainda foi de perdas. Na passagem do primeiro trimestre para o segundo, a pandemia abateu 8,876 milhões de vagas de trabalho, entre formais e informais, conforme a variação da população ocupada total, que tombou 9,6%. No terceiro trimestre, o total de ocupados ficou em 82,464 milhões, 1,1% abaixo do segundo trimestre. Mais 883 mil vagas foram cortadas.

Para Adriana Beringuy, gerente da Pnad Contínua, a redução no ritmo de fechamento de vagas já pode ser considerada um processo de melhora. A recuperação de todas as vagas perdidas logo no terceiro trimestre era improvável, mesmo com a retomada da economia.

“Ainda que a melhora esteja ocorrendo, o tamanho da perda foi muito grande”, afirmou Adriana, referindo-se à queda na ocupação no segundo trimestre. “De fato, dado o tamanho da perda de ocupação é complicado esperar já no terceiro trimestre a reversão”, completou a pesquisadora.

Segundo Adriana, após responder por cerca de 70% das vagas fechadas no mercado de trabalho na passagem do primeiro para o segundo trimestre, as ocupações informais cresceram no terceiro trimestre. Na passagem do segundo para o terceiro trimestre, são 870 mil trabalhadores informais a mais ocupados, indicando que a flexibilização do isolamento social permitiu que uma parte dos informais voltasse às ruas. Sem essa alta, o número total de fechamento de vagas no terceiro trimestre seria ainda maior.

Com o aumento das vagas informais, a taxa de informalidade ficou em 38,4% da população ocupada no terceiro trimestre, acima dos 36,9% do segundo trimestre. Após a recessão de 2014 a 2016, com a economia crescendo lentamente entre 2017 e 2019, o surgimento de vagas informais puxou a lenta melhora no mercado de trabalho. Com isso, no terceiro trimestre do ano passado, a taxa de informalidade atingiu o nível máximo da série, com 41,4%. Naquela ocasião, eram 38,806 milhões de brasileiros em ocupações informais. Em um ano, são 7,168 milhões de informais a menos no mercado, indicando que muitos desses trabalhadores ainda estão sem ocupação.

O emprego formal teve impacto negativo. O contingente de trabalhadores com carteira assinada no setor privado ficou em 29,366 milhões no terceiro trimestre, queda de 2,6% sobre o segundo trimestre, sinalizando para o fechamento de 788 mil postos formais em um trimestre. Ante o terceiro trimestre de 2019, a queda foi de 11,2%. São 3,709 empregos formais fechados em um ano. / COLABOROU CÍCERO COTRIM

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Entenda por que os números do Caged e do IBGE apontam em direções contrárias

Apesar de o mercado de trabalho formal registrar o quarto mês seguido de mais contratações que demissões, o índice de desemprego no País não para de subir

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 10h42
Atualizado 23 de dezembro de 2020 | 13h30

Nos últimos meses, a cada divulgação de dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que consolida os números  do mercado de trabalho formal, têm-se a impressão de que tudo está melhorando. Já são cinco meses seguidos de saldo positivo – ou seja, mais contratações do que demissões. Mas aí vem o IBGE e divulga seus dados do mercado de trabalho, a Pnad Contínua, e o que vemos é um balde de água fria. O desemprego não para de subir. Por que essa discrepância vem ocorrendo?

A principal causa disso é que são pesquisas bastante diferentes, com metodologias distintas, apesar de ambas trazerem um retrato do mercado de trabalho. No caso do Caged, o número se refere apenas às admissões e demissões feitas pelas empresas formalizadas. São os registros nas carteiras de trabalho dos empregados, dados que as próprias empresas enviam ao Ministério da Economia.

Já no caso da Pnad Contínua, é uma pesquisa “amostral”, com perguntas feitas às pessoas, e se refere tanto ao trabalho formal quanto ao informal. Acontece que, no Brasil, a informalidade é bem maior que a formalidade. Segundo os dados do próprio IBGE, em setembro havia no País 29,1 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado. Mas esse mesmo setor privado tinha 8,8 milhões de trabalhadores sem carteira assinada, que se somavam aos 31 milhões de informais e aos 21,5 milhões de trabalhadores “por conta própria”. Ou seja, o universo dos “sem carteira” é mais do que o dobro dos “com carteira”.

Além disso, alguns analistas acreditam que, por causa da pandemia da covid-19, os dados do mercado formal de trabalho podem estar distorcidos. A avaliação é que os programas de auxílio lançados pelo governo federal para conter os efeitos da pandemia, como a suspensão dos contratos de trabalho, estariam segurando as demissões, que aumentariam assim que essas “muletas” sejam retiradas.

Daniel Duque, especialista em mercado de trabalho do Ibre/FGV, já levantou também a hipótese de que muitas empresas, sobretudo as pequenas, responsáveis pela maior massa de empregos, simplesmente fecharam as portas durante a pandemia e nem reportaram os desligamentos, o que ajudaria a melhorar os dados do Caged.

Seja lá qual for o motivo, o verdadeiro retrato do mercado de trabalho brasileiro só deve ser conhecido no ano que vem, quando os auxílios fornecidos ao governo, tanto às pessoas quanto às empresas, forem retirados. Haverá, nesse caso, um número muito maior de pessoas nas ruas em busca de uma ocupação. Ninguém tem muita esperança de que será um retrato bonito.

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