Isac Nóbrega/PR
Isac Nóbrega/PR

Brasil tem estoque de fertilizantes até a próxima safra, diz ministra Tereza Cristina

Ministra da Agricultura afirma que, apesar da dependência dos produtos importados da Rússia e de Belarus, os produtores já tinham comprado os adubos necessários para o próximo plantio a partir outubro

Eduardo Rodrigues, Guilherme Pimenta, Célia Froufe e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 17h13
Atualizado 02 de março de 2022 | 17h13

BRASÍLIA - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse nesta quarta-feira, 2, que, apesar da "forte dependência" da importação do adubo NPK (nitrogênio, fósforo e  Potássio), o Brasil tem "forte estoque de passagem" do insumo.

"Estamos conversando com a Associação Nacional de Adubos (Anda), que tem estoque da passagem para chegarmos até a próxima safra, (que começa a ser plantada) em outubro", afirmou a ministra, em entrevista nesta tarde à emissora CNN Brasil.

Os agricultores já compraram fertilizantes para esta safra, falou a ministra. "Já tem gente com produto na propriedade." 

Atualmente, o País está colhendo a safra de soja e de milho verão e iniciando o plantio do milho de inverno, que são as principais culturas de grãos do País. 

Outra importante cultura que está sendo cultivada neste momento é a do algodão, que está no fim do plantio. Entretanto, como disse a ministra, produtores costumam comprar adubos, sementes e agroquímicos com antecedência de pelo menos uma safra.

Preocupação

O potássio é o produto de maior preocupação do governo brasileiro, de acordo com a ministra. "O nosso maior gargalo no Brasil é o potássio. Importamos mais de 90% do que consumimos. Este é o produto com o qual temos mais preocupação e por isso é que, já prevendo isso, estávamos articulando com outros países produtores, como o Canadá", disse ela. 

Tereza Cristina afirmou que o país da América do Norte é o maior produtor mundial de potássio, mas que as minas estavam desativadas e agora deverão voltar a ser operadas por causa da demanda de países como o Brasil.

A ministra também disse que o porcentual de dependência do Brasil da Belarus "não era baixo" em relação à importação de fertilizantes. “Mas nós já estávamos procurando alternativas”, afirmou. 

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia, Belarus contribui com cerca de 20% do cloreto de potássio importado anualmente pelo Brasil, do total de aproximadamente 12 milhões de toneladas internalizadas por ano.

Tereza Cristina disse que soube nesta quarta sobre a informação de que a Belarus está sofrendo uma sanção da União Europeia, já que se mostra alinhada com a Rússia na crise com a Ucrânia. O bloco não permitirá mais a venda para países vizinhos. “Então isso realmente fecha esse mercado de potássio da Belarus, que já estava fechado, mas agora as sanções estão mais fortes”, comparou.

Tereza Cristina disse ainda que há uma preocupação específica com os preços dos fertilizantes, que, antes mesmo da crise Rússia/Ucrânia, já estavam em patamares bastante altos. "Uma preocupação global, que não é só do Brasil. Mas estamos acompanhando", afirmou a ministra.

Plano nacional

A ministra da Agricultura afirmou também que o Plano Nacional de Fertilizantes já está pronto e deve ser lançado até o dia 17 deste mês. O plano busca estimular a produção própria de fertilizantes no País.

O plano, conforme a ministra, está atualmente em processo de revisão da legislação nos ministérios da Economia e da Agricultura. “A Casa Civil até o dia 17 de março estará com isso pronto.” 

Tereza Cristina afirmou que foram identificados gargalos de legislação, tributários e de licenças ambientais. “Às vezes investidores acabam desistindo de explorar potencial, principalmente do potássio. Na região de Autazes (AM), nós temos uma gigantesca mina, que pode ser explorada. Supriria 25% do que hoje exportamos, que hoje está em torno de 96%”, disse ela, citando também uma mina que depende de licença no Sergipe.

A ministra também disse que o Brasil importa fósforo do Marrocos, que é o maior produtor do mundo. “É coisa muito complexa. Estamos trabalhando para ter menor dano possível. Para que o Brasil caminhe não para autossuficiência, mas para mais produção interna, para ter garantia da segurança alimentar e segurança nacional da produção.”

Antes mesmo do conflito no Leste Europeu, Tereza Cristina afirmou que a questão dos fertilizantes já era um problema no Brasil, e as consequências serão maiores a depender da duração da questão geopolítica. "Se a guerra durar mais tempo, as consequências serão maiores. Esperamos bom senso e que essa guerra acabe rapidamente.”

Alta de preços

A ministra comentou também sobre o comportamento volátil das commodities agrícolas em meio ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia. "Se o (preço do) pãozinho vai subir? Hoje o preço do trigo disparou. Não é o mais alto dos últimos anos, mas o valor foi às alturas na Bolsa de Chicago. A soja também já subiu e agora está caindo, o milho também...", afirmou durante a entrevista à CNN Brasil. "Isso vai depender do momento que estamos vivendo. É muito cedo para a gente pregar catástrofe, ou dificuldade ou facilidade", completou.

Para ela, o que o governo precisa fazer no momento é apresentar planos para suprir o mercado brasileiro. Ela garantiu que a população vai ser abastecida. "Vai ter safra, vai ter agricultura. O que precisamos é ver o que a gente consegue minimizar (em termos) de preço. Isso não depende só do Brasil", considerou.

 Tereza Cristina ressaltou que a Ucrânia é uma grande produtora de grãos, como trigo, cevada e milho, e que o país do Leste Europeu exporta para grandes consumidores, como China e Europa. "Vamos ter um rearranjo, é preocupante, mas temos que fazer o quê? Ações imediatas para que a gente tenha o mínimo de dano possível. Não só no preço, mas também no abastecimento. E (sobre) esse, eu posso dizer que não teremos problemas pelo tamanho da nossa agricultura, por tudo o que temos de tecnologias novas."

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