Mariana Bazo/Reuters
Mariana Bazo/Reuters

Brasil tem menos espaço para suavizar impactos externos, avalia FMI

Crise interna e necessidade de ajustes fiscais e monetários fazem o Brasil ter menos ferramentas para lidar com o fim do superciclo das commodities, segundo representante do Fundo

Vinicius Neder , O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2015 | 12h42

RIO - Com a mudança de cenário para as cotações internacionais de matérias-primas, os países da América Latina têm de fazer ajustes, afirmou o chefe da missão regional do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Marcello Estevão, nesta sexta-feira, 23. Ainda assim, a situação é diferente de país para país e o Brasil tem menos espaço para suavizar esse ajuste, destacou o economista brasileiro.

"É um novo ambiente externo, há que se fazer um ajuste. Não há outra opção", afirmou Estevão, ao apresentar, no Rio, o relatório regional lançado pelo FMI na reunião anual, em Lima (Peru).

O relatório afirma que, embora fatores externos expliquem parte da recessão no Brasil, são os problemas domésticos brasileiros os maiores responsáveis pela contração da economia em 2015 e 2016. O documento destaca a corrupção na Petrobrás e o julgamento das pedaladas fiscais pelo Tribunal de Contas da União (TCU) como alguns dos fatores.

Como não integra a equipe técnica responsável por acompanhar a economia brasileira, Estevão concentrou-se na análise regional, evitando, na apresentação, detalhar o caso do Brasil. O economista destacou, porém, que o País tem menos espaço para "suavizar" os efeitos do cenário externo, justamente por razões domésticas.

"O Brasil tem menos espaço de política econômica porque está ajustando as políticas fiscal e monetária. Os países que têm espaço para suavizar o ajuste, devem fazer isso. Os que não têm, têm de fazer ajustes na política econômica", afirmou Estevão, em entrevista após a apresentação.

O relatório do FMI destaca as diferenças entre os países, apesar do contexto comum dos efeitos do fim do superciclo de commodities. A própria dinâmica das cotações de matérias-primas faz diferença, destacou Estevão. A queda nas cotações de commodities metálicas começou em 2011, afetando antes países como Chile e Peru, que tiveram que começar a se ajustar antes. O colapso nas cotações do petróleo data do ano passado, atingindo Venezuela, Colômbia e Equador. Com problemas políticos internos, Venezuela, Equador, Argentina e Brasil estão na mira dos investidores do mercado financeiro.

Por isso, a reação à mudança no cenário externo varia. Segundo Estevão, Chile e Peru, com espaço fiscal, sobretudo no primeiro caso, puderam fazer políticas anticíclicas. "O Chile tem espaço, a dívida é pequena. O Brasil está em situação pior porque a dívida é bem mais alta", afirmou o economista. 

Sistema bancários. O FMI espera uma deterioração nos indicadores do sistema bancário na América Latina, que por ora continuam "robustos", mas ainda não é possível colocar essa questão como um risco, segundo Estevão.

"Nossa expectativa é que esses indicadores vão piorar nos próximos 18 meses, porque existe uma defasagem entre a desaceleração econômica e o efeito no sistema bancário", afirmou.

Após a apresentação, o economista explicou que a observação se baseia em estudos sobre os efeitos da economia no sistema bancário, mas ainda é cedo para verificar se o sistema bancário é um risco daqui para a frente na América Latina. "Não vemos nenhum risco, mas há uma preocupação", disse. 

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