Alex Silva/Estadão
Com pressão dos alimentos e anúncio de reajuste nos planos de saúde, projeção da economista Andrea Damico é de inflação maior para o consumidor. Alex Silva/Estadão

Brasil tem segunda maior alta de preços no atacado no mundo, mostra estudo

Disparada dos preços no País perde apenas para a Argentina; para economista, próximos meses serão marcados por inflação no varejo ainda mais pressionada

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 11h00

O aumento dos preços no atacado no Brasil é o segundo maior do mundo, atrás apenas da alta de preços na Argentina, mostra um levantamento da economista-chefe da gestora de investimentos Armor Capital, Andrea Damico. A comparação foi feita com base nos índices de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) de 82 países.

No caso brasileiro, foi considerado o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que está dentro do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), da Fundação Getulio Vargas (FGV). No acumulado em 12 meses até setembro (que é o dado que consta no estudo), o aumento de preços chega a 26,03%. Mas a FGV (FGV) já publicou o resultado de outubro, o que levou o acumulado a 31,05%, não muito distante do resultado da Argentina no mesmo período (39,2%).

Os índices de preços no atacado captam basicamente o custo dos processos de produção - como os preços das matérias-primas e de produtos intermediários usados pelas indústrias, por exemplo. Esses custos têm subido por vários motivos, sendo um dos principais a desvalorização do real, que torna mais caros os insumos importados.

Por conta das condições atuais da economia brasileira, principalmente o desemprego em alta, tem sido difícil repassar a totalidade desse aumento de custos aos consumidores. Daí a diferença entre os indicadores: enquanto o IGP-DI acumula mais de 30% de aumento em 12 meses, o IPCA, índice oficial de inflação do País, está em 3,92% nesse mesmo período. A preocupação dos analistas é por quanto tempo será possível segurar esse repasse do atacado para o varejo, se as condições econômicas se mantiverem deterioradas por um período muito longo. 

Em seu levantamento, com dados compilados pela plataforma CEIC, ligada ao grupo ISI Emerging Markets, Andrea só comparou os países que tinham dados para os meses de setembro ou outubro. Isso porque, a depender do local, esse indicador é informado com defasagem. Na União Europeia, por exemplo, o último número disponível é o de setembro. A Venezuela é, disparado, o país com maior alta de preços (258%) - mas o último dado disponível é de janeiro.

"Na comparação com os PPIs dos países do mundo, o Brasil perde para Venezuela e Argentina. O que a gente tem aqui é diferente do resto do mundo, mesmo dos emergentes. Depois do Brasil, tem a Turquia, com 18%, que subiu praticamente 5 pontos porcentuais de juros na semana passada. A maioria dos emergentes está oscilando entre zero e 5% de PPI. Não existe paralelo do nosso choque de preços do atacado no mundo emergente razoável, retirando Venezuela e Argentina."

Diante disso, a economista relata preocupação com a dinâmica inflacionária em 2021. Depois do anúncio do reajuste de planos de saúde referente a 2020 (8,14%) pela Agência Nacional de Saúde (ANS), houve revisão na projeção do IPCA do ano que vem, de 3,75% (centro da meta) para 4,0%. Ela espera que o IPCA em 12 meses atinge um pico de 5,75% em maio de 2021.

Choque do câmbio e do preço das commodities

Andrea Damico afirma que o Brasil vive hoje um choque duplo na inflação, de câmbio  e de commodities, pois o aumento desses produtos no mercado internacional não se traduziu, como ocorre historicamente, em valorização do real, sobretudo por conta das preocupações fiscais no Brasil. O choque é quase triplo quando se considera também o aumento das exportações para a China neste ano.

Ainda há alta da demanda por causa do auxílio emergencial e, principalmente, na visão da economista, da poupança circunstancial de famílias de classe média, que deixaram de consumir serviços durante o período de isolamento social.

"Tenho muita preocupação com a inflação. O choque ainda não acabou. Se daqui em diante o IGP fosse zero, ainda assim o início de 2021 mostraria os preços de industriais pressionados. Mas o IGP segue elevado", diz, mencionando ainda que o preço do minério de ferro voltou a acelerar.

Ela aposta que o Banco Central deve começar a elevar a taxa Selic no segundo trimestre do ano que vem, levando os juros no fim do ano a 4,0%. A economista lembra que o BC pode usar o fiscal como álibi, já que muito dificilmente haverá algum avanço nas reformas estruturais no Congresso,  mas que a questão da inflação também seria um argumento. Para ela, se a mediana do Boletim Focus - atualmente em 3,40% - chegar a 3,50% para 2021, já estaria próximo o suficiente do centro da meta para o BC retirar a prescrição futura.

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Com alta nos preços do atacado, aumenta a preocupação com o IPCA em 2021

Projeções de analistas do mercado financeiro contrastam com o discurso do Banco Central, de que a pressão nos preços ao consumidor é temporária

Thaís Barcellos, Maria Regina Silva e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 11h00

Sem folga no aumento de preços no atacado e com notícias negativas de clima e de recomposição de tarifas administradas, a preocupação com a inflação de 2021 é crescente no mercado financeiro, contrastando com o discurso do Banco Central (BC), de que o choque parece temporário.

Esta semana, o Boletim Focus, que reúne projeções de analistas do mercado financeiro, mostrou novo aumento na estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do ano que vem, de 3,22% para 3,40%, aproximando-se cada vez mais do centro da meta (3,75%) perseguida pelo BC. E não são mais raras as instituições que veem a inflação superando o alvo central em 2021, inclusive com estimativas em 4,0%.

Com o resultado de 0,81% do IPCA-15 de novembro - acima da média das expectativas, de 0,72%, da pesquisa do Projeções Broadcast - pode ser novo motor para revisões. Assim, algumas casas também já começam a revisar as apostas para a Selic, a taxa básica de juros, com antecipação da normalização monetária do fim do ano para meados de 2021.

O alerta ficou mais intenso com as sucessivas surpresas dos produtos no atacado, que não têm mostrado desaceleração do forte aumento. Dentro do Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) de outubro para o IGP-10 de novembro, por exemplo, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) desacelerou de 4,86% para 4,59%, com os produtos agrícolas passando de 9,51% para 9,49% e os industriais, de 2,99% para 2,58%.

O temor é que enorme encarecimento em 12 meses (33,04% do IPA, 61,02% dos produtos agropecuários e 23,66% dos industriais) ainda seja repassado ao varejo, que, no mesmo período, segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), tem alta de 4,18%. O IPCA, a inflação oficial do País, por sua vez, soma 3,92% em 12 meses até outubro.

"Não há o menor sinal de desaceleração do IPA agrícola, os repasses para o consumidor (no preço de alimentos) só devem diminuir dois a três meses depois do início do alívio dos preços ao produtor", destaca o economista Alexandre Lohmann, da GO Associados, que já projeta IPCA de 3,80% em 2021.

"Temos de entender também o tamanho do problema do clima em 2021. A Nasa divulgou uma carta recente dizendo que a América Latina estava na pior seca desde 2002", destaca.

Citando como principal fator a alimentação e o risco da La Niña, evento climático que causa mais chuva no Norte do País e seca no Sul, prejudicando lavouras, o economista Carlos Lopes, do Banco BV, elevou a projeção para o IPCA em 2021 de 3,10% para 3,60%.

Preocupação com preços administrados

Outro ponto que vem ganhando cada vez mais atenção - e preocupação - do mercado é o reajuste dos preços administrados, represados ou contidos este ano por causa da pandemia de coronavírus. Na semana passada, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autorizou um reajuste máximo de 8,14% para os planos de saúde individuais e familiares de maio de 2020 a abril de 2021.

Mas como, devido à pandemia, só pode ser aplicado a partir de janeiro, a agência sugeriu que o aumento seja parcelado entre os 12 meses do ano que vem. O problema é que, a partir de maio, novo reajuste pode ser autorizado. Com isso, o banco Credit Suisse, que já tinha projeção para 2021 acima da meta, em 3,80%, elevou a estimativa mais uma vez nesta segunda-feira (23), para 4,00%.

"Nos preços administrados, 2021 vai ser a volta dos que não foram", diz a economista Andrea Angelo, da Canvas Capital, que projeta inflação de 6,15% para o grupo e 3,50% para o IPCA.

O forte aumento autorizado pela ANS também eleva o temor com os reajustes de energia elétrica no ano que vem. Para o item, Andrea projeta aumento de 5,50% em 2021, em um cenário com bandeira verde ao longo de todo o ano. Ela lembra, ainda, que é provável ver inflação mais expressiva nos transportes públicos, que tiveram reajustes baixos em 2020 em função das eleições municipais. Ela projeta aumento de 4,0% na tarifa de ônibus interestadual (de deflação de 7,90% em 2020) e de 5,0% nos ônibus urbanos (de 1,58% em 2020). Lopes, do BV, ainda cita mudança da bandeira tarifária para a conta de luz.

JPMorgan e Barclays também destacam a dinâmica de preços administrados em suas revisões do IPCA para 3,60% no ano que vem. Na visão do economista para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, haverá uma troca de componentes na inflação no ano que vem, com os alimentos e os comercializáveis cedendo, com a queda da demanda devido ao fim do auxílio emergencial limitando espaço para repasses, mas avanço de administrados (de 0,70% em 2020 para 5,40% em 2021) e serviços (de 1,80% para 2,90%).

"O número em si não é preocupante por ainda haver folga em relação à meta, mas a dinâmica merece atenção. Embora a gente acredite que vai acontecer menor pressão do 'coronavoucher' (o auxílio emergencial pago pelo governo), assumindo que de fato seja descontinuado, a pressão que vem dos IGPs é bastante significativa. Onde é possível está vendo reajustes atualmente. A pressão existe, a questão é se vai ter vazão em 2021", diz Secemski.

Soma-se a tudo isso a perspectiva de que o real não deve ter grande valorização no ano que vem, considerando o nível atual do câmbio, em torno de R$ 5,40. Na Canvas Capital, Andrea afirma que o risco de repasses do câmbio para a inflação ao consumidor em 2021 é alto.

Ociosidade

Algumas instituições ainda não veem motivo para se preocupar com a dinâmica da inflação e mantêm boa folga entre a projeção para 2021 e o centro da meta oficial, principalmente devido à perspectiva de que o desemprego ainda deve aumentar e a ociosidade tende a mitigar alta de preços.

Na Mauá Capital, a expectativa é que o IPCA encerre 2021 em 2,8%, mas o economista-chefe Alexandre Ázara ressalta que o pico deve ocorrer em 4,5% em meados do ano. "O aumento recente da inflação deve-se ao choque de alimentos e um pouco de materiais que ficaram sem ser produzidos no curto prazo. Não dá para ficar preocupado com inflação com desemprego de 20%, que é o valor que se encontra quando ajustamos a População Economicamente Ativa (PEA) para valores de longo prazo."

Com a revisão de IPCA, o BV também mudou as apostas de política monetária, antecipando o início da alta de juros de outubro de 2021 para agosto. A previsão é de que a Selic termine o ano em 3%, de 2% ao ano em 2020.

Secemski, por sua vez, avalia que o BC precisa ficar atento à dinâmica de inflação, mas não tem porque responder ainda com política monetária, uma vez que a recomposição vai ocorrer principalmente em administrados. Mas o Barclays já espera alta de juros a partir de agosto, com a taxa Selic terminando 2021 em 3,75% com vistas à meta de 2022 (3,50%).

Na Quantitas Asset, apesar de reconhecer maior risco em relação à dinâmica de inflação, o economista João Fernandes ainda acredita que a tendência é de desaceleração do IPCA a partir do segundo trimestre. Por isso, o movimento não deve ensejar resposta do BC no curto prazo. O cenário base de Fernandes é de alta de juros só no início de 2022.

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