Brasil tem uma das mais baixas taxas de integração no comércio internacional, diz OMC

Apenas 40% dos produtos importados pelas empresas no País são integrados à produção de bens que, depois, será exportada; entre emergentes, só África do Sul e Argentina estão menos integradas

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2014 | 08h18

O Brasil não conseguiu se inserir nas grandes cadeias de produção no mundo da mesma forma que os demais emergentes e, em seu lugar, proliferaram medidas de proteção e exigência de conteúdo local que agora estão sendo criticadas por parceiros comerciais. O alerta está no relatório anual da Organização Mundial do Comércio (OMC), publicado em Genebra. 

A entidade destaca que as economias emergentes já são responsáveis por 60% do fornecimento de produtos intermediários, o que revela que estão integrados nas cadeias produtivas mundiais. Seriam nelas que estariam os maiores ganhos do comércio e geração de renda. 

No caso do Brasil, porém, o cenário é outro e a taxa de participação nas cadeias de produção é uma das mais baixas do mundo entre as grandes economias.

Nos últimos oito anos, o Brasil foi o país entre as grandes economias que viu o maior salto nas importações, com uma expansão média de 16% ao ano desde 2005. 

O problema é que a entrada desses produtos não foi direcionada para incrementar a exportação nacional, revelando a baixa participação do País nas cadeias de produção. 

Apenas 40% dos produtos importados pelas empresas no País são integradas à produção de bens que, depois, serão exportados. Apenas as economias da África do Sul e da Argentina estão menos integradas que o Brasil entre os emergentes. Incluindo as economias ricas, o Canadá também aparece abaixo do Brasil. Economias como o do Camboja, Brunei ou Arabia Saudita estão em melhores situações. 

O ranking é liderado por Taiwan, que tem 75% de suas importações ligadas a bens que depois serão exportados, numa demonstração de seu envolvimento em grandes cadeias de produção mundial. O grupo de economias mais integradas é ainda composta por Cingapura, Filipinas e Coréia do Sul, todos com participação de mais de 70%. O Chile seria a economia latino-americana mais integrada, com quase 60%.

Para o economista-chefe da OMC, Robert Teh, foram os países que mais reduziram tarifas de importação para bens e serviços os que mais se beneficiaram nessa integração. 

Segundo ele, os dados usados para fazer o levantamento são de 2008 e 2012. "Mas não acreditamos que muita coisa mudou desde então", explicou. Segundo ele, esses são os últimos dados consolidados sobre cadeias de produção. 

Emergentes. Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC, também insistiu na importância da participação de emergentes nas cadeias de produção. "Os estudos evidenciam que participar nas cadeias de produção gera maior produtividade e crescimento", declarou o brasileiro. 

De acordo com o levantamento, pela primeira vez as economias emergentes passaram a dominar metade do comércio mundial. "A maior integração ocorreu de mãos dadas com o crescimento", destacou o informe, apontando como milhões de pessoas saíram da pobreza nos últimos 15 anos. 

Em 2000, os emergentes correspondiam a 33% do comércio mundial. Hoje, a taxa chegou a 48%. 

Exportadores. Marcelo Olarreaga, professor da Universidade de Genebra, alertou que enquanto um número maior de empresas brasileiras não atuar no comércio mundial, a desigualdade gerada pelo comércio vai continuar. Usando um estudo de 2014 publicado pela Universidade Princetown, ele aponta que apenas 10% das empresas brasileiras eram exportadoras nos anos 90, o que explicou o aumento da desigualdade. 

"Isso só vai mudar quando 40% das empresas nacionais entrarem no mercado internacional", declarou Olerreaga. "O que é necessário, portanto, é de mais globalização, e não de menos", alertou.

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