Brasil tenta novos mercados na Europa para carne

Produtores argentinos podem ser os maiores beneficiados pelo embargo imposto pela União Européia

BBC Brasil,

30 de janeiro de 2008 | 17h49

Enquanto o Brasil tenta buscar alternativas no mercado europeu para vender sua carne, os produtores argentinos podem ser os maiores beneficiados pelo embargo imposto pela União Européia (UE) à carne brasileira. Importadores de Bruxelas e da Grã-Bretanha disseram à BBC Brasil que pretendem compensar a falta de carne brasileira com produtos da Argentina e Austrália. Veja também:União Européia suspende a importação de carne brasileira Irlandeses comemoram embargo à carne brasileiraMineiros dizem que UE cedeu à pressão da Irlanda  "Em termos de qualidade, não há diferença. A verdade é que nunca precisamos da carne brasileira. Compramos do Brasil porque é mais barato e o país é capaz de fornecer em maiores quantidades", afirmou um importador que não quis se identificar.  Entretanto, o conselheiro argentino de Agricultura para a UE, Gustavo Idígoras, assegura que o país não tem capacidade para suprir a parcela de mercado que será deixada pelo Brasil. As exportações de carne brasileira para a UE somaram US$ 1,4 bilhão no ano passado, com um total de 543 mil toneladas. Já a Argentina exportou 80 mil toneladas de carne à UE. A expectativa do governo é que esse volume suba para, "no máximo", 100 mil toneladas em 2008. "Temos uma política que dá prioridade ao mercado interno e limita o volume permitido para exportação. Com nossa atual capacidade de produção, não esperamos um aumento significativo nas exportações", explicou Idígoras. No lado brasileiro, o diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antonio Jorge Camardelli, disse que os produtores brasileiros vão usar de "criatividade" para buscar outros mercados para substituir os europeus. No ano passado, a União Européia foi o destino de 31,6% das exportações brasileiras em dólares, e de 21,4% em toneladas. O bloco é o segundo maior destino da carne brasileira em quantidade, depois da Rússia, mas o primeiro em volume de recursos, porque compra cortes mais nobres e mais caros.  O diretor da Abiec reconhece que o mercado europeu é importante para os produtores brasileiros, mas diz que considera mais importante a postura do governo de não aceitar a limitação do número de frigoríficos habilitados a exportar. Problemas A decisão da UE foi tomada depois de uma disputa em relação ao número de fazendas que o Brasil teria direito de certificar. O problema começou no final do ano passado, quando a União Européia anunciou que estava impondo novos limites às exportações brasileiras por questões sanitárias. O governo brasileiro passou então a verificar cada uma das fazendas e, pelos critérios exigidos pelos europeus, certificou mais de 2,6 mil propriedades. Mas os europeus já haviam antecipado que, pelas novas normas, dariam o sinal verde a apenas 300 fazendas.  O governo brasileiro avaliou, no entanto, que se todas as fazendas cumprem os requisitos, não caberia ao Ministério da Agricultura selecionar apenas 3% delas. "Como faríamos para selecionar uma fazenda e não a outra se estão em condições de igualdade?", questionou um funcionário do ministério em Brasília. Em Bruxelas, os europeus não escondiam a irritação com a atitude brasileira. Primeiro, pelo número de fazendas, considerado exagerado. Outra confusão foi o fato de cada Estado ter feito uma lista separada. A própria missão diplomática do Brasil junto à UE confessou que não tinha como somar as listas. Com a atitude, o governo jogou de volta para os europeus o problema. Comenta-se que a pressão dos produtores irlandeses também pesou na decisão de embargo à carne brasileira. A Irlanda é quem mais sofre com a concorrência da carne brasileira. A comissária de Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, havia dito que a Europa precisa ser "justa", e a resposta de Bruxelas ao problema precisa ser "proporcional". Segundo ela, a limitação em 3% das fazendas brasileiras cumpria a questão da "proporcionalidade".

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