Brasil tentará ampliar exportação de aço aos EUA

O Brasil enfrenta a partir desta segunda-feira os desafios de manter o tratamento mais brando reservado pelos Estados Unidos aos siderúrgicos brasileiros e ainda de pleitear a ampliação das cotas de importação a seus produtos. O tema será abordado nos encontros do representante norte-americano para o Comércio, Robert Zoellick, com o presidente Fernando Henrique Cardoso, quatro ministros e os principais negociadores do País entre esta segunda e terça-feira.Na próxima final de semana, o assunto voltará a ser debatido em consultas bilaterais em Genebra, na Suíça. "O Zoellick vai ser almoçado, jantado e reunido", afirmou à Agência Estado o embaixador José Alfredo Graça Lima, subsecretário-geral de Assuntos de Integração Econômicos e de Comércio Exterior do Itamaraty, em tom de brincadeira, referindo-se à disposição do governo e também do representante norte-americano de tratar em profundidade os temas comerciais nos eventos já agendados em Brasília.Os desafios brasileiros são os resultados naturais de dois movimentos ocorridos na semana passada. O primeiro está contido no anúncio das medidas de salvaguarda às importações de produtos siderúrgicos feito pelo próprio Zoellick, na última terça-feira. Ao garantir 51% da cota de desembarque de produtos semi-acabados aos fabricantes brasileiros e isenções para alguns itens de produtos acabados, o governo norte-americano imaginou ter contentado o Brasil e anulado qualquer possibilidade de reação.O Itamaraty, de fato, reconheceu o tratamento mais benevolente. "Dentre os países prejudicados, o Brasil talvez tenha sido o menor. O que não quer dizer que o País não foi prejudicado", enfatizou Graça Lima. "Ao atingir um setor-chave da economia brasileira, a medida americana atingiu o rumo da expansão da atividade do País neste e nos próximos anos".O outro movimento partiu da União Européia, que já deu o primeiro passo em direção a uma controvérsia com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as medidas de salvaguardas. Em seu pedido de consultas formais com o governo norte-americano, encaminhado na última quinta-feira, os europeus indiretamente questionaram o tratamento "mais benevolente" concedido ao Brasil e pediram isonomia.Peso-pesado no comércio internacional, a União Européia causou o sério risco de o Brasil perder a fatia de 51% da cota de semi-acabados. Zoellick, entretanto, conhece as reivindicações dos negociadores brasileiros para evitar o pior cenário - e para ver o ousado pleito de elevação da cota atendido.Basicamente, os argumentos são: a siderurgia brasileira foi reestruturada e é competitiva e há complementaridade entre as produções de aço dos dois países. Sobretudo, o País deverá se valer da necessidade de os dois países manterem "canais limpos" nas discussões de temas comerciais. Brasil e Estados Unidos foram aliados nos esforços para o lançamento da nova rodada multilateral da OMC e têm interesse que as negociações engrenem neste ano.Os dois mantêm posições pouco convergentes sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), apesar de assumirem a co-presidência dessas discussões no final deste ano, quando o processo entrará na etapa decisiva. Na opinião de Graça Lima, as iniciativas dos Estados Unidos de proteger a indústria siderúrgica e de elevar os subsídios à produção da soja e do algodão tornarão as negociações da OMC e da Alca "extremamente complicadas. Mas o Brasil, recomenda o negociador, deverá ser ainda "mais agressivo" no combate às pressões protecionistas ao longo dessas discussões, assim como fez com a Argentina em 1999.Retirar-se das negociações, para ele, seria o mesmo que reconhecer antecipadamente a vitória do protecionismo. "Seria lamentável", afirmou. Em sua avaliação, as decisões norte-americanas sobre o aço e a agricultura não refletem os desejos do Executivo norte-americano de fomentar o protecionismo, mas sim dou Congresso.Poderão ser, em princípio, uma moeda de troca para a aprovação parlamentar ao mandato para o mesmo Executivo fechar acordos comerciais sem o risco de vê-los alterados por deputados e senadores, o chamado Trade Promotion Authority (TPA). "Entendo e espero que essas iniciativas não façam parte de uma tendência (protecionista)", declarou o embaixador. "Não posso admitir que, ao mesmo tempo que em que esteja engajado nas negociações da Alca e da OMC, o Executivo americano esteja tomando decisões contrárias ao livre comércio".

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