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'Brasil terá de concorrer por capital com os EUA'

Economia dos Estados Unidos tem dado sinais de expansão, e no fim do ano moeda americana pode chegar a R$ 2,20

Entrevista com

FERNANDO TRAVAGLINI , TERESA NAVARRO, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2013 | 02h07

A tradicional concorrência do Brasil por atração de capitais e investimentos com países da América Latina deve dar lugar a um adversário muito mais forte: os Estados Unidos. A economia americana tem dado sinais de expansão. "Nesse cenário, o que pode acontecer nos próximos 12 a 24 meses é o Brasil, e todo o mundo, passar a competir por capital com os Estados Unidos", afirma o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Mário Mesquita, sócio e economista-chefe do banco de investimento Brasil Plural.

Que a disputa é desigual, o economista não tem dúvidas, mas será para todos os países. A receita é o Brasil criar um ambiente no qual os investidores se sintam confortáveis, com regras estáveis e previsibilidade. Em um contexto mundial mais favorável aos EUA e menos favorável à China, o Brasil terá de conviver com um real mais fraco, com a piora na sua balança comercial e no balanço de pagamentos.

Segundo Mesquita, as projeções para a taxa de câmbio do banco estão em revisão, mas o economista estima que o dólar deve chegar no fim do ano entre R$ 2,10 e R$ 2,20. Em cinco anos poderá chegar a R$ 2,50.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

A valorização do dólar é uma tendência que veio para ficar?

Há uma rotação a favor dos Estados Unidos. Na margem, as perspectivas para a economia americana têm melhorado e para a economia chinesa têm sido revistas para baixo. Chama atenção uma certa resiliência da economia americana, mesmo diante do ajuste fiscal. Então, parece de fato que o mundo pode estar caminhando para um período de dólar mais forte.

Isso se reflete no Brasil?

O contexto mundial é, a princípio, negativo para o real. O Brasil exporta muito para a China. E, mais importante do que isso, o crescimento chinês tem efeito significativo sobre os nossos termos de troca, o que é ruim para a moeda brasileira. Não devemos esperar que a taxa de câmbio ajude no combate à inflação. Mas não há risco de crise.

Qual a projeção para o dólar?

Vamos ver como o governo reage a esse novo contexto. Se o BC não atuar, o mais provável é que o câmbio vá para R$ 2,10 ou acima disso, daqui para o fim do ano. Por enquanto, dada a preocupação das autoridades com a inflação, existe uma tendência de o governo e o BC moderarem esse movimento (de depreciação). Mas, nos próximos cinco anos, podemos ver R$ 2,50, R$ 2,60, R$ 2,70. A gente já viu essas taxas antes.

As emissões de empresas brasileiras lá fora, como a Petrobrás, que captou US$ 11 bilhões, podem ajudar a segurar o real?

Há muito apetite ainda lá fora por ativos. Pode haver mais entradas. Acho que (a retirada do) IOF ajudaria (a atrair mais recursos). Mas isso só compra tempo. Evita que o real se deprecie agora, mas não muda o contexto e tampouco os fundamentos do balanço de pagamentos. O déficit em conta corrente saiu de 2,4% do PIB para 3,0% do PIB em quatro meses. É algo que em algum momento tem de bater no câmbio. É o mecanismo natural de ajuste.

Quando o BC dos EUA vai retirar os estímulos monetários?

O Fed tem receio de retirar prematuramente os estímulos e contribuir para interromper o atual início de voo da economia dos EUA. Mas existe claramente no comitê uma preocupação com a distorção no comportamento dos investidores derivada de um período de taxas de juro baixo muito prolongado. Aparentemente eles vão começar a retirar estímulos em setembro, outubro. Quanto à alta de taxas de juros, acredito que ocorra no último trimestre de 2014 ou início de 2015.

Qual o impacto para o Brasil?

As pessoas sempre falam que costumam ver o Brasil competindo por recursos, por capital, por investimento estrangeiro com países como o México. Mas o que pode acontecer nos próximos 12 a 24 meses é o Brasil, como todo o mundo, passar a competir por capital com os EUA, à medida que a economia americana comece a sair da recessão e a crescer mais. É um ambiente em que o Brasil vai ter de fazer um esforço maior em atrair capitais.

O que o Brasil precisa fazer?

Criar um ambiente no qual os investidores se sintam confortáveis, com regras estáveis, com previsibilidade macroeconômica e algumas reformas. Acho que o governo teve uma iniciativa bastante positiva na reforma portuária. Precisa seguir nessa linha e avançar em outras reformas. Por exemplo, no mercado de trabalho, a lei de imigração, para atrair mão de obra qualificada.

Qual sua projeção para o PIB?

Estamos com projeção de 3,2%. O investimento deve crescer acima do PIB no primeiro trimestre (4% a 5%, anualizado), mas não deve manter o impulso ao longo do ano.

Qual a expectativa para o Copom?

Acredito em alta de 0,5 ponto porcentual da Selic. Mudamos nosso posicionamento em relação ao Copom com as sinalizações vindas da própria autoridade monetária, que indicam uma predisposição de intensificar o combate à inflação. Além disso, houve um acúmulo de sinais bem nítidos de afrouxamento adicional da política fiscal. Se o discurso não for amparado por ação, ele perde efetividade. A comunicação que não é consistente com as decisões não é comunicação, é barulho. É ruído.

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