Brasil terá de estender fim de barreiras aos outros países do Mercosul

A idéia de o Brasil abrir as fronteiras comerciais para a Argentina, medida que pode até ser considerada de "humanitária" no momento em que o principal parceiro no Mercosul enfrenta uma das piores crises econômicas da história, terá de ser estendida aos outros parceiros do bloco - Uruguai e Paraguai. "Existe um tratado entre os quatro países e, até pela própria regra da não-discriminação, o Brasil não pode conceder favores apenas para um, terá de ceder para os outros dois também", disse o presidente da Associação de Empresas Brasileiras para Integração de Mercados (Adebim), Michel Alaby.Além disso, explicou Alaby, "qualquer proposta nesse sentido terá de ser aprovada pelo Grupo Mercado Comum (CMC) e, depois, pelo Conselho do Mercado Comum (CMC)". O CMC, do qual fazem parte ministros da área econômica e chanceleres dos quatros países, deve reunir-se em Buenos Aires em cerca de dez dias, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso estará visitando a Argentina. A eliminação de barreiras comerciais entre o Brasil e a Argentina começou a ser discutida entre os dois países logo depois da visita do chanceler argentino, Carlos Ruckauf, a Brasília, no início do mês passado. "Acho estranho abrir o que já está aberto, principalmente no que se refere a tarifas, já que o único setor que ainda mantém alíquotas de importação é o automotivo", disse Alaby.De acordo com o presidente da Adebim, a eliminação de barreiras não-tarifárias, como licenças de importação, cotas e outros tipos de restrições burocráticas, não resolverão o problema da Argentina. "O que esse país precisa é de dinheiro", afirmou.Sobre possíveis impactos do fim das barreiras comerciais no Mercosul, o executivo disse ser complicado estimá-los, já que importação não depende apenas de preço baixo, mas de crescimento econômico. "Você não compra apenas porque um determinado produto está mais barato, compra se você tiver dinheiro e perspectivas de que continuará tendo", afirma.Ele acredita, no entanto, que a composição entre a desvalorização do peso argentino e a eliminação de barreiras não-tarifárias provocará um aumento das importações de alguns produtos específicos, como laticínios, petroquímicos, arroz, trigo e, provavelmente, calçados e têxteis. "Isso poderá até segurar a inflação este ano", afirmou o presidente da Adebim.Outro especialista do setor de comércio exterior, que preferiu manter o nome no anonimato para não entrar em atrito com o ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, disse que o eventual fim das barreiras comerciais entre o Brasil e a Argentina é algo como "chover no molhado". Para ele, livre comércio e união aduaneira, estágios já atingidos pelo Mercosul, pressupõem eliminação de todo tipo de barreiras tarifárias e não-tarifárias, ou, no mínimo, o estabelecimento de prazos que determinem a eliminação destas barreiras. Ou seja, os quatro países, dez anos depois da criação do bloco econômico, não deveriam mais estar discutindo o que já deveria ter sido eliminado. "Parece ser até um balão de ensaio para, depois, o governo brasileiro anunciar algum tipo de ajuda, como linhas de financiamento para importações da Argentina", disse.Ele considerou as intenções do Brasil de "paliativas". Para ele, a ajuda que deveria estar sendo discutida é, por exemplo, linhas de financiamento baratas para venda de máquinas e equipamentos para o parque industrial argentino, hoje totalmente sucateada. "O BNDES poderia fazer parte dessa ajuda" , afirmou.Leia o especial

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