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Brasil terá pior PIB entre grandes economias em 2016, diz ONU

Entidade diz que País viveu 'desindustrialização precoce' e alerta que produtividade do trabalhador não cresce há 15 anos

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2016 | 15h15

GENEBRA – O Brasil sofrerá, em 2016, a maior contração entre as grandes economias do mundo e a queda deve continuar em 2017. Num informe publicado nesta quarta-feira pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), as projeções apontam que a queda do PIB será de 3,2%. Mas, na avaliação da entidade, o desafio será maior que apenas retirar a economia nacional do buraco. Segundo o levantamento, o Brasil passou por uma desindustrialização e há 15 anos a produtividade do trabalhador está em queda. 

No geral, o PIB mundial deve ter uma expansão de 2,3%, abaixo do desempenho de 2015 e revelando a fragilidade das estratégias de retomada do crescimento da economia mundial.

"A expectativa é de uma queda no crescimento nos Estados Unidos que pode ficar, pela primeira vez em sete anos, abaixo daquele da União Europeia. Enquanto isso, no Japão, persiste a estagnação. No Reino Unido, a recente recuperação será negativamente afetada pelo Brexit", indicou. 

Entre os emergentes, a expansão será de apenas 3,8%, a mais baixa desde 2009. "A perda de dinamismo econômico nas economias avançadas está afetando os países em desenvolvimento, que vão crescer, em média, menos de 4% este ano, cerca de 2,5 pontos percentuais abaixo da taxa alcançada durante o período pré-crise", indicou a ONU. 

 

Mas entre as dez maiores economias do mundo, apenas a do Brasil e a da Rússia sofrerão uma contração. No caso de Moscou, ela será de 0,2%, depois de uma queda de 3% em 2015.

 

Para a economia brasileira, os dados revelam três anos de contração ou praticamente uma estgnação. Em 2014, o desempenho do PIB apontou para um aumento de apenas 0,1%. No ano seguinte, a queda foi de 3,8%, o que também colocou o Brasil como tendo o pior desempenho entre as maiores economias do mundi. Agora, mais uma queda deve ser registrada.  

 

A situação do Brasil está inclusive afetando as demais economias da região latino-americana. Para a entidade da ONU, a região "caminha para seu segundo anos de estagnação econômica e um risco de crescimento negativo em 2016". "Isso ocorre principalmente por conta do fraco desempenho econômico da América do Sul, onde vários países sofrem com quedas no consumo e na formação de capital fixo", indicou o informe. 

 

A Unctad aponta que condições externas mais difíceis, como a queda nos preços de commodities, levou a um mudança nas políticas fiscais e a depreciação das moedas. Para combater o risco de inflação, economias como a do Brasil elevaram as taxas de juros, "causando uma desaleração ainda maior de seu crescimento". 

 

Para a ONU, a crise no Brasil não acabou. "A contração econômica no Brasil deve continuar, dada as condições monetárias apertadas, os objetivos do governo de endurecer ainda mais a política fiscal e as incertezas políticas que estão afetando os investimentos", apontou. 

 

Produtividade. O informe anual da Unctad, porém, alerta que os desafio enfrentados pelo Brasil vão muito além da volta de taxas positivas para o crescimento. Um dos maiores desafios do País será o de voltar a gerar uma taxa produtividade dos trabalhadores no setor industrial. 

 

Segundo os dados da entidade, desde o ano 2000 não há um aumento da produtividade do trabalhador brasileiro. Entre 2000 e 2007, o que se registrou foi uma estagnação na taxa de produtividade. Entre 2007 e 2014, houve uma contração de 2,5%, uma das maiores entre os países em desenvolvimento. 

 

Enquanto isso, na Ásia, a expansão da produtividade em sete anos foi em média de 5,1% ao ano. Na China, ela chegou a 6,9%, contra 4,3% na Coreia. Mesmo nos países ricos, o aumento foi de 1,1% entre 2007 e 2014, período da pior crise econômica em 70 anos. 

 

Outra constatação da Unctad se refere ao menor valor agregado gerado pela economia nacional. O papel da indústria na economia brasileira passou de 40% nos anos 80 para apenas 25% em 2014. 

 

“Os processos de industrialização na Argentina, Brasil e Chile avançaram significativamente desde os anos 30 e 40, ao ponto que nos anos 70, seus setores manufatureiros representavam 34%, 31% e 20% do valor agregado total da economia, respectivamente”, indicou a entidade. Mas, entre 2010 e 2014, essa participação caiu para 17%, 13% e 12%, respectivamente”, alertou. 

 

A perda de peso da indústria não se limitou ao Brasil e, diante do avanço do setor de serviços, tal fenômeno também foi visto nos países ricos. Mas, no caso dos emergentes, a constatação é de que essa desindustrialização aconteceu de forma prematura. 

 

“Diante do fato desse processo de contração relativa do setor manufatureiro ter sido iniciado com níveis de renda per capta muito abaixo dos níveis per capta das economias desenvolvidas quando iniciaram sua desindustrialização, esse fenômeno tem sido chamado de “desindustrialização precoce”. 

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