Brasil terá que convencer Índia e Argentina por acordo na OMC

Para Amorim, esta 6ª será decisiva para as negociações da Rodada Doha para liberalização do comércio mundial

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

25 de julho de 2008 | 08h05

O Brasil dá sinais de que pode fazer concessões na Rodada Doha e chegar a um acordo nesta sexta-feira, 25, mas não consegue convencer seus parceiros entre os países emergentes, principalmente a Índia e a Argentina, a seguir a mesma linha. O processo na Organização Mundial do Comércio (OMC) e as próprias alianças entre o Brasil e as economias emergentes estão por um fio diante dos impasses. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, já afirmou que esta sexta será o dia decisivo para as negociações.  Veja também:Rodada Doha: entenda o que está em jogo em Genebra Sarkozy diz que não assinará acordo em Doha na forma atualStephanes 'deve achar que estou me divertindo', diz Amorim'Não acredito em Doha', diz StephanesBrasil quer benefícios para etanol na Rodada DohaDiretor da OMC reduz grupo de negociação de Doha a 7 países Stephanes 'deve achar que estou me divertindo', diz Amorim "Vamos continuar as discussões amanhã [sexta] e acho que será o dia em que saberemos se [um acordo] é possível ou não", afirmou Amorim, depois que os negociadores concluíram as discussões na quinta-feira. "Talvez não terminemos tudo, mas precisamos ter um acordo". A representante de Comércio dos EUA, Susan Schwab, também afirmou que esta sexta será decisiva. "Veremos se todos estão preparados para fazer a sua parte", disse Schwab ao deixar a sede da OMC.  O Itamaraty indicou que poderia adotar uma nova posição de abertura de seu mercado para bens industriais, ainda que modesta. O problema é que a Índia e a Argentina rejeitam, por enquanto, fazer concessões. O Itamaraty ainda sabe que não pode demonstrar um racha entre os emergentes nesse momento e o chanceler Celso Amorim chega a sair da sala de reunião cada vez que há um ponto de discórdia com a Índia para não se expor. Mas as diferenças são claras. Na quinta-feira, americanos e europeus continuaram pressionando os emergentes por maior acesso a seus mercados para bens industriais. A reunião entre China, Brasil, Índia, Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália entrou pelo quarto dia e não conseguiu superar o impasse de sete anos. Lançada em 2001 como forma de corrigir as distorções no comércio internacional, a Rodada Doha ganhava contornos políticos na quinta-feira. Diante da relutância da Índia em aceitar qualquer tipo de acordo, a Casa Branca decidiu colocar pressão total. O presidente americano George W. Bush ligou para o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, alertando para os riscos de um fracasso. Num encontro reservado, Amorim e a representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, concordaram que os indianos estavam dificultando um acordo. "Todos terão de fazer concessões, tanto os que têm interesses ofensivos como os que têm interesses defensivos", afirmou o chanceler, admitindo que as flexibilidades também terão agora de surgir dos demais países emergentes. O Brasil não esconde que espera que a Índia mude de posição. Uma coisa que vem assustando o Itamaraty é que, desde que o governo indiano ganhou um voto de confiança de seu parlamento na terça-feira, a posição de Nova Délhi nas negociações foi endurecida.  Algumas horas depois da ligação de Bush, a Índia aceitou continuar negociando, mas sem fazer nenhuma concessão nem dar indicações de que poderia aceitar uma abertura de seu mercado.Durante o dia, as resistências da Índia fizeram com que os rumores indicassem um fracasso. Mas, como resumiu o embaixador da França na OMC, Phillip Gross, "um morto foi ressuscitado".  Já os argentinos nem mesmo deixavam claro sua posição. Insistem que precisam manter 16% de suas linhas tarifárias em proteção no setor industrial. O Brasil aceitaria entre 13% e 14%. O problema é que os dois fazem parte do Mercosul e precisarão chegar a uma posição comum.  Na quinta-feira, o governo argentino continuava a mostrar sinais de força, rejeitando qualquer flexibilidade. Amorim preferia frases de efeito. "Nossa solidariedade com a Argentina é eterna." Tanto no Mercosul como na aliança com a Índia, o Brasil sabe que não poderá romper a coalizão, principalmente por questões políticas.

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