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''Brasil vai se recuperar antes da China''

Para o economista, o sistema financeiro brasileiro é mais flexível, mas, mesmo assim, o País ainda terá anos difíceis

Entrevista com

Luciana Xavier, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

A crise global está longe do fim, mas, se há algum país que pode se recuperar primeiro, esse país é o Brasil, não a China, diz Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Escola de Administração da Universidade de Pequim. Pettis, que está no Brasil para participar de um seminário em São Paulo, acha que a China terá dificuldades para resolver o problema de excesso de produção por meio do aumento da demanda doméstica. "A China está tentando fazer isso, mas, se alguém acha que será fácil ou rápido, está muito enganado." Ouça o áudio com a íntegra da entrevistaA seguir, os principais trechos da entrevista.O sr. diz em seu blog que a crise está longe do fim. Quão distante estamos? E isso se aplica à China?Isso se aplica especialmente à China. Acho que há muito para se trilhar até que a crise chegue ao fim. Esta crise é resultado de desequilíbrios significativos, que se formaram ao longo de muito tempo, especialmente nos últimos dez anos, nos quais o crescimento do consumo americano foi muito maior que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O que é outro modo de dizer que os EUA foram aumentando cada vez mais os seus déficits comerciais. Uma das consequências disso é que as famílias se endividaram de modo insustentável. Agora, estamos num processo, que deve levar de três a quatro anos, de redução do endividamento. A expansão do consumo nos EUA será menor que a do PIB por vários anos. Com isso, o déficit comercial deve diminuir e pode até se tornar superávit, o que terá impacto importante na China. Pois, no coração do modelo de desenvolvimento chinês, está o excesso de produção, acima do consumo doméstico. Isso requer que algum país tenha déficit comercial maior para absorver essa capacidade excedente chinesa. Esses tempos terminaram. Os EUA não querem ou não podem mais continuar com déficits comerciais tão altos. O que significa que o problema de excesso de capacidade da China terá de ser resolvido na esfera doméstica, e isso será bem difícil.O que pode ser feito? A princípio, todos concordam que a China precisa elevar o consumo doméstico. Mas as políticas que têm sido implementadas nos últimos anos vão na direção oposta. Nos últimos cinco anos, o consumo no país caiu em relação ao PIB e as exportações cresceram em relação ao PIB, exatamente o oposto do que deveria ser feito. De fato, dada a rigidez do sistema financeiro e do modelo econômico, é muito difícil fazer essa troca. Alguns países fizeram isso, como os EUA, no início do século 19; o Brasil, há 30 ou 40 anos, ou o Japão, mais recentemente. A China está tentando fazer isso, mas, se alguém acha que será fácil ou rápido, está muito enganado. Haverá pelo menos uma década de transição difícil. Então, a China não será a primeira a se recuperar da crise, como apostam muitos analistas?Não. Acho que a maioria dos analistas simplesmente não entende a magnitude do problema. É preciso ter cuidado ao se dizer que o país será "um dos primeiros a se recuperar". A China não vai entrar em sério colapso porque o governo está estimulando gastos fiscais de maneira dramática, particularmente, por meio de empréstimos bancários. O problema da expansão rápida dos empréstimos é ter um aumento grande da inadimplência e isso levará anos para ser saldado. Quando digo que a China terá uma década difícil, não quero dizer que será como os EUA nos anos 30, o Japão nos anos 90 ou o Brasil nos anos 80. A China terá expansão, de 4% ou 5% ao ano, talvez um pouco mais. Mas os tempos de expansão de 13% ou 14% se foram, provavelmente, para sempre. A China não poderá substituir os EUA como consumidor global?Não. O consumo na China é quase o mesmo da França. Como ficam os outros países emergentes, especialmente o Brasil, que é tão dependente do comércio com a China?Acho que será difícil. Lembre-se que mesmo parte das exportações do Brasil para a China, na verdade, são indiretamente para os EUA. A China importa commodities que depois são usadas na produção de suas exportações. Se houver crescimento lento no consumo nos EUA, haverá crescimento lento em todas as economias que dependem diretamente ou indiretamente do consumo nos EUA. O sr. vê uma década difícil para o Brasil também?Acho que o sistema financeiro brasileiro é bem mais flexível. A estrutura da dívida no Brasil, embora ainda não seja notável, tem melhorado. Meu palpite é que o Brasil pode ter alguns anos difíceis, mas acho que vai emergir da crise mais rápido que a China e a maior parte dos países asiáticos.Isso significa que o Brasil poderia sair na frente em comparação com EUA, Europa e a China?Não sou especialista em Brasil, mas diria que o que nos surpreende ao fazermos retrospecto de crises globais é que países que parecem mais fortes, com maiores níveis de reservas e de superávits comerciais, são os que sofrem maiores ajustes e provavelmente veremos isso de novo. Quem é: Michael PettisFoi considerado este ano pela revista BusinessWeek uma das vozes mais influentes sobre economia chinesa. É autor de vários livros e mantém o blog mpettis.com.Passou muitos anos trabalhando em Wall Street, alguns dos quais no banco Bear Stearns, antes de ir para a China, onde está há cerca de sete anos.

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