Brasil venderá diesel à Argentina

O governo do presidente Néstor Kirchner decidiu deixar de lado os desmentidos que pronunciava nos últimos dias sobre a escassez de combustível na Argentina, e preferiu enfrentar a dura realidade. Desta forma, anunciou que acordou com a Petrobras a compra urgente de 20 mil metros cúbicos de óleo diesel, para ajudar na escassez do produto. O pedido foi realizado pelo ministro do Planejamento Federal da Argentina, Julio De Vido, braço direito de Kirchner, ao ministro de Minas e Energia do Brasil, Silas Rondeau, durante a visita deste à Buenos Aires, na terça-feira. Este é o segundo ano consecutivo que a Argentina precisa recorrer à importação de diesel. Simultaneamente, Kirchner também negocia com outras empresas de combustíveis a importação de mais diesel e a formação de um estoque.A nova crise - que acrescenta-se à outras na área energética, como os problemas no abastecimento de gás - é usada pela oposição para criticar a política do governo. Líderes opositores afirmam que o país caminha para uma crise energética de graves proporções. Desde a crise de 2001, os investimentos na exploração de novas jazidas foram mínimos. Analistas argumentam que os governos do ex-presidente Eduardo Duhalde, e o atual, de Kirchner, impuseram uma série de obstáculos para a realização de investimentos, tal como o congelamento das tarifas das empresas privatizadas de serviços públicos e os impostos sobre as exportações de gás e petróleo.Colheita A falta de diesel ameaça a colheita da soja e o plantio do trigo, além de irritar os motoristas nas grandes cidades, que enfrentam problemas para o abastecimento nos postos de gasolina. De quebra, também causa problemas no sistema rodoviário de transporte de cargas.O diesel brasileiro, que chegará ao porto de Buenos Aires em menos de duas semanas, equivale ao combustível que uma centena de postos de gasolina poderia vender durante o período de um mês na Argentina. Isso implicará, em junho, um aumento de 2% na oferta de combustível no mercado deste país.A demanda de diesel aumentou 5% nos primeiros quatro meses deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, chegando a 4,03 milhões de metros cúbicos.Segundo a Secretaria de Energia, a empresa Repsol YPF aumentou suas vendas de diesel em 7% entre janeiro e abril deste ano em comparação com o mesmo período de 2005. A Esso registrou um aumento de 9% nas vendas. Nesse período, a Shell e a Petrobras registram o mesmo volume do ano passado.Fluxo de motoristasEnquanto isso, o governo Kirchner analisa formas de reduzir o fluxo de motoristas brasileiros que carregam seus tanques do lado argentino da fronteira, onde o diesel é vendido por 1,50 peso (US$ 0,50) o litro. Uma possibilidade especulada é a de cobrar aos estrangeiros na área da fronteira um valor mais elevado pelo litro do diesel.A Confederação de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa (Carbap) anunciou estar preocupada pelo início de desabastecimento de diesel, alertando que isso poderá causar graves riscos para a colheita da soja e no plantio do trigo. O setor agropecuário consome anualmente 4 milhões de litros. Postos No meio desta crise também estão os postos de gasolina, que reclamam da falta de lucratividade. A Confederação de Entidades de Comércio de Hidrocarbonetos e Afins da República Argentina (Cecha) protesta: "a rentabilidade de cada litro vendido está congelada há mais de dois anos, e nesse intervalo os custos cresceram constantemente". Na quarta-feira, em sinal de protesto, 60% dos postos em todo o país realizaram uma greve de três horas.A Confederação - que reúne 4.700 postos de gasolina em toda a Argentina - afirma que não pretende um aumento do preço dos combustíveis, mas sim, "uma pequena parte dos lucros das companhias petrolíferas". Segundo a Cecha, nos últimos três anos mais de 2 mil postos de gasolina faliram e tiveram que fechar suas portas.

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