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Brasil vive a maior sobra de gás natural da história

Parte do combustível é perdida em queima e outra tem que ser reinjetada nos campos por falta de demanda

Kelly Lima, da Agência Estado,

10 de agosto de 2009 | 16h03

O Brasil vem registrando em 2009 a maior sobra de gás natural em toda sua história. No total, deixaram de chegar ao mercado diariamente uma média de 20,4 milhões de metros cúbicos por dia, um volume equivalente ao que é importado diariamente da Bolívia. Deste total, 8,72 milhões foram perdidos em queima e outros 11,7 milhões tiveram que ser reinjetados nos campos, seja por falta de demanda no mercado ou infraestrutura para transporte.

 

Os dados são do Ministério de Minas e Energia em seu último relatório mensal sobre o mercado de gás natural no Brasil, referente ao mês de maio. Segundo especialistas, a tendência é de no novo boletim, que deve sair nos próximos dias, referente ao mês de junho, a sobra seja ainda maior. O resultado é que a sobra de gás tende a aumentar.

 

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), foram vendidos 40,6 milhões de m³/dia em junho ante os 41,5 milhões de m³/dia consumidos em maio, queda de 2,16%. Em relação ao mesmo período de 2008, o consumo de gás natural registrou um recuo ainda maior: 19,35%. O consumo acumulado no primeiro semestre do ano também caiu em 27,82%, na comparação com o primeiro semestre de 2008. Na avaliação da Abegás, "mais uma vez os dados demonstram que, como vinha acontecendo nos últimos meses, a falta de uma política energética e o alto preço do insumo têm refletido de forma negativa no consumo".

 

A sobreoferta já faz com que a média de gás natural importado da Bolívia esteja em seu nível mínimo, de 21 milhões de metros cúbicos por dia nos seis primeiros meses do ano. De acordo com o contrato entre os dois países, o Brasil pode até chegar a importar 19 milhões de metros cúbicos num dia, mas tem que compensar a compra nos demais dias para que a média diária no ano se mantenha nos 21 milhões de metros cúbicos. Caso esta compensação não ocorra, o contrato do tipo take or pay prevê que o Brasil pague pelo mínimo, mesmo que não consuma.

 

A situação de sobra de gás é completamente inversa a de dois anos atrás - quando havia o risco de um novo racionamento de energia no País - e bastante diferente do cenário de dependência total do gás importado da Bolívia, em 2006, quando o presidente daquele país, Evo Morales, privatizou as reservas locais e trouxe o temor de um desabastecimento ao mercado brasileiro. Em todo o ano passado, também o consumo do gás importado esteve próximo ou superior ao máximo contratado de 30 milhões de metros cúbicos por dia.

 

As causas para este novo cenário vieram de uma combinação fatal para o setor: queda na demanda industrial provocada pela crise internacional e excesso de chuvas que elevaram os níveis dos reservatórios e eliminaram a necessidade de acionamento das usinas térmicas à gás. "Não era possível prever um cenário como este", comentou o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, que admite que a sobreoferta de energia no País vai perdurar até 2015.

 

Para ele, a Petrobrás fica como refém deste mercado, porque precisa dar garantias plenas de fornecimento de gás quando as usinas tiverem que ser acionadas. "Ela não pode sequer fechar contratos flexíveis para negociar esta energia quando os reservatórios estão cheios", lembrou Tolmasquim, que já defende a adoção de medidas para elevar o consumo no Brasil.

 

A Agência Estado encaminhou à Petrobrás um amplo questionário sobre a produção, abastecimento e sobras de gás natural no País, mas após três semanas de espera não obteve resposta da área de Gás e Energia. Para todas as perguntas, a companhia disse apenas que "não há problema de abastecimento". Isso quando os especialistas estão falando em sobra e há indicação de maior sobreoferta.

 

Com as recentes descobertas de novos reservatórios e mesmo a entrada de produção em alguns campos de grande porte - como é o caso de Mexilhão na Bacia de Santos em 2010, com capacidade para a produção de até 15 milhões de metros cúbicos por dia - a tendência é de um agravamento nesta sobreoferta. "O ideal é estimular contratos flexíveis", afirma Tolmasquim. Ele também propôs a conversão para o gás natural de parte das térmicas a óleo combustível leiloadas no sexto e sétimo leilão de energia nova em 2008. "Além de ambientalmente melhores, seria possível aproveitar o gás que está sobrando. O cenário é diferente daquela época, quando o gás estava mais caro e o óleo foi a opção ótima", disse. Segundo ele, o mesmo preço das turbinas para usinas que fossem movidas a óleo combustível ou gás natural permitiria a conversão de várias usinas, que responderiam pelo consumo de até 15 milhões de metros cúbicos por dia.

 

Para o professor Nivalde Castro, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, o próprio mercado já está cuidando de criar incentivos para o aumento do consumo. Ele cita o caso dos leilões da Petrobrás, em que os preços negociados ficaram bastante depreciados. O valor médio do leilão realizado em junho com entrega prevista para agosto, por exemplo, ficou em US$ 4,66 por milhão de BTU (unidade britânica que mede o poder calorífico do gás). No primeiro trimestre deste ano, a estatal comercializou o gás nacional a US$ 7,74 no mercado não térmico e a US$ 7,33 o gás importado. "O melhor tipo de incentivo para aumentar a demanda é a redução do preço. As indústrias que puderem vão converter novamente para este combustível, se tiverem condições favoráveis de preço e principalmente garantia de entrega", disse, lembrando que há dois anos, quando houve o risco de um novo racionamento, algumas empresas tiveram que reverter seu consumo de gás para óleo combustível.

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