Brasil vive crise de crédito, diz economista

Crédito para montadora não resolve problema, diz Troster, ex-Febraban; Gomes de Almeida, da Unicamp, defende ajuda para resgatar economia

Vinicius Neder , O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2015 | 02h03

RIO - Analistas concordam que, em meio à recessão, a restrição ao crédito agrava o problema das empresas. Mas a forma de enfrentar a questão é motivo de divergência. Economistas ouvidos pelo 'Estado' fizeram análises distintas sobre a estratégia do governo de orientar os bancos públicos a socorrer empresas de diversos setores com empréstimos em melhores condições que as de mercado.

Os dados mais recentes do Banco Central (BC) apontam alta de apenas 0,6% nas concessões totais de crédito para pessoas jurídicas nos 12 meses até junho - no acumulado do ano, houve queda de 0,4%.

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'O Brasil está com problemas, isso está freando a economia. Uma reforma de crédito daria um gás na economia' - Roberto Luís Troster, economista
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Para o consultor Roberto Luís Troster, que foi economista-chefe da Febraban, entidade que representa os bancos, os números são sinal de que há uma "crise de crédito". "O Brasil está com problemas, isso está freando a economia. Uma reforma de crédito daria um gás na economia", afirmou Troster, crítico da estratégia anunciada ontem.

Sem controle. Na visão do economista Júlio Gomes de Almeida, professor do Instituto de Economia da Unicamp, "estamos perdendo o controle do tamanho da recessão". "Se o crédito for embora, a coisa fica muito difícil."

Almeida diz que oferecer linhas de crédito especiais para setores que tem maior peso na economia é positivo, mesmo que não resolva o problema. Em sua visão, o crédito apenas "dá fôlego" às empresas.

O modelo das linhas anunciadas pela Caixa ontem para o setor automotivo, que usam como garantia contratos de fornecimento com as montadoras, no caso do setor de autopeças, é positivo porque permite oferecer juros menores com menos subsídio, segundo Almeida. Na mesma linha, vai a linha de capital de giro do BNDES, o Progeren, que teve as condições ampliadas semana passada, com orçamento de R$ 7,7 bilhões até o fim do ano.

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'Se o crédito for embora, a coisa fica muito difícil' - Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp
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O economista não vê problemas na seleção de alguns setores. Segundo o professor da Unicamp, cadeias de fornecedores das indústrias de bens de capital, eletroeletrônica, moveleira e química, além da automotiva, geram muitos empregos e movimentam a economia.

Conta para a sociedade. Troster discorda. "O governo poderia até fazer incentivos setoriais, mas, neste momento de crise de crédito e inadimplência, essas medidas só vão aliviar algumas empresas à custa de toda a sociedade", afirmou Troster, que defende uma reforma do crédito, começando pela liberação dos compulsórios, os recursos dos bancos depositados no BC, com baixíssimo rendimento e que não podem ser emprestados.

Segundo Troster, são R$ 360 bilhões parados e liberar uma parte dos recursos dinamizaria o crédito para todas empresas. Outras medidas da reforma seriam mudar as exigências do BC em relação a provisionamentos para perdas (valores que os bancos separam no balanço para arcar com calotes), montar um cadastro de inadimplência "interativo" (usado por todos os bancos e com notas para cada tomador de crédito, empresa ou pessoa física, que funcionaria como os bônus do setor de seguros) e mudar o sistema de tributos.

Almeida e Troster discordam também sobre os impactos nas contas públicas. Para o professor da Unicamp, o custo em termos de recursos públicos é pequeno porque há boas garantias, no modelo usado no setor automotivo. Já Troster alerta para o risco de se "colocar dinheiro bom sobre dinheiro ruim", pois em vários dos setores citados, a demanda na ponta está fraca, como no caso das vendas de automóveis, em queda desde o início do ano.

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