FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Brasileiro deixa de fazer estoque em casa

Com renda apertada, consumidor compra só o que vai usar no curto prazo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 04h00

A aposentada Suzana França, de 60 anos, chegou a estocar, no passado, cem garrafas de vinho em casa. Hoje ela tem apenas cinco. Suzana também cortou o estoque de cerveja e de outros itens, como os de higiene pessoal. Sabonete, antes, comprava quatro ou cinco. “Agora levo para casa dois: um para cada banheiro.”

O funcionário público aposentado, Francisco Carlos Barbosa, de 51 anos, também colocou o pé no freio nas compras. Ele conta que chegou a comprar pacote com cem rolos de papel higiênico. Mas como o preço subiu, hoje compra o que vai usar mesmo. “Quando acaba vou lá e compro de novo. Mas não faço mais estoque.”

Suzana conta que tinha em casa vários tipos de grãos: feijão branco, feijão preto, feijão carioca, lentilha e grão de bico. Hoje leva para casa dois ou três e quando acaba volta às compras. “Não sou economista, mas a minha forma de agir mudou porque os preços estão muito altos em relação à minha renda e tenho de resolver o problema dentro da minha administração doméstica. É uma tática defensiva”, explica.

Virada

A estratégia de deixar de fazer estoque doméstico de produtos, adotada intuitivamente pelo consumidor, foi provocada pela alta de preços de vários itens nos últimos meses.

O preço do papel higiênico, por exemplo, subiu em 12 meses até março deste ano 4,2%, segundo dados da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Já em 12 meses até março do ano passado, o preço do produto estava estável.

O sobe e desce do preço do papel higiênico se repetiu em outro produto básico: o leite de caixinha. Em 12 meses até março deste ano, o preço do leite acumula alta de 10,8%, depois de registrar queda 9,1% em 12 meses até março do ano passado. “Foi uma mudança de preços da água para o vinho”, observa o economista-chefe da Confederação nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Barbosa observou que o leite subiu bastante. “Eu pagava R$ 1,99 e agora está mais de R$ 3.” Pai de dois filhos, ele conta que o produto é de alto consumo na sua casa. Por isso, procura o encontrar marcas em ofertas usando aplicativos de compras.

Quanto às idas ao supermercado, o funcionário público aposentado revela que desembolsa entre R$ 100 e R$ 120 a cada viagem e traz para casa uma quantidade menor de produtos. “Antes gastava menos”, reclama.

Do início do ano para cá, Barbosa sentiu um aperto no orçamento por causa do avanço da inflação dos alimentos. “Tem inflação sim e piorou neste começo de ano.” O feijão, por exemplo, está “caríssimo”, diz ele. No primeiro trimestre, o preço do feijão mais que dobrou, subiu 105%, segundo o IPCA.

Enquanto o preço da comida disparou, a renda de Barbosa e da maioria dos brasileiros não acompanhou essa alta, especialmente num momento em que o desemprego se mantém em níveis elevados e a ocupação cresce impulsionada pela informalidade que remunera os trabalhadores com rendimentos entre 30% e 40% menores comparados aos obtidos pelos empregados com carteira assinada.

No caso de Barbosa, ele diz que recebeu um reajuste de 4% depois de quatro anos. “Os salários estão praticamente congelados e no meu caso não acompanhou a evolução de preços do mercado.”

Racionalidade

Suzana lembra que no passado, quando via produtos em oferta, saia comprando, sem muita racionalidade. “Eu não usava e acabava desperdiçando.” Mas agora ela diz que segue o comportamento de compras dos estrangeiros. A aposentada tem um filho que mora no Canadá e observou que lá as pessoas compram ingredientes para uma refeição ou duas refeições, no máximo. “Aprendi muito com ele.”

Vivendo de aposentadoria e de renda de aluguel, Suzana sentiu muito a alta dos preços dos alimentos e estabeleceu metas para economizar. No passado, usava o carro para fazer as compras de supermercado e chegava a gastar R$ 2 mil por mês para abastecer a casa. 

Atualmente, vai a pé ao supermercado próximo de casa e só carrega o que cabe na sacola. “Agora a minha meta é gastar R$ 800 por mês e dá muito bem. Nada de exagero.” A aposentada cortou o queijo importado das compras e passou a levar para a casa duas bananas, como os estrangeiros.

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