Brasileiro reduz gasto com celular e alimento

Pesquisa contraria dados de empresas, que apontam crescimento em telefonia e no varejo de supermercado

Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

A crise, que para os economistas entra em uma fase mais amena, tem uma interpretação diferente para o brasileiro. Segundo uma pesquisa mundial coordenada pela rede Worldwide Independent Network of Market Research (Win), realizada no Brasil pelo Ibope Inteligência, com o passar do tempo, o consumidor decidiu cortar mais despesas do orçamento.

O estudo "Barômetro Mundial sobre a Crise Financeira", feito em dezembro passado, em março e, na versão mais recente, em julho, ouviu 21.088 consumidores de 22 países; 2.002 no Brasil. O objetivo era saber como os entrevistados têm se comportado, influenciados pela crise, com relação aos gastos. O consumidor se revelou mais sensível aos problemas econômicos, mas ainda é mais otimista que os americanos e argentinos e está abaixo da média de corte dos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Dos entrevistados, subiu de 31% para 40% do total os que disseram ter cortado as despesas com mantimentos para casa. Em vestuários/calçados/acessórios, a redução de gastos também foi grande: de 45% para 54% da população. O item que mais sofreu até agora é o de móveis e eletrodomésticos (ver quadro acima).

Segundo Laure Castelnau, diretora de Atendimento e Planejamento do Ibope Inteligência, o brasileiro tem cortado as despesas maiores com produtos para casa. Em alguns casos, como o de mantimentos, ele pode ter migrado para marcas mais econômicas, embalagens menores ou simplesmente eliminado itens da lista de supermercado.

"O brasileiro se alinhou agora aos tempos de crise. Seu otimismo durou mais tempo. O resultado demonstra que ele decidiu começar a rever alguns planos de consumo", avalia. Laure não acredita que o resultado da pesquisa seja motivo de preocupação porque as quedas de consumo não foram tão expressivas. "As notícias sobre a retomada da economia costumam ter um impacto nas pessoas. Agora é esperar se na próxima pesquisa a recuperação vai aparecer", diz.

Na vida das empresas, porém, as respostas dadas ao instituto de pesquisas não refletem a mesma temperatura. José Roberto Tambasco, vice-presidente Comercial e de Operações do Grupo Pão de Açúcar, afirma que as vendas nas lojas têm aumentado acima dos índices de inflação. "O consumidor está mais atento, mais criterioso na hora de comprar. Ele pensa ?e se eu perder o emprego?? Nunca foi tão forte o hábito de comparar preços?", explica.

Uma das formas de o Pão de Açúcar se adaptar aos novos tempos foi por meio de pesquisas com os consumidores. "Assim, percebemos melhor que ele não queria se endividar demais, que era preciso oferecer melhores condições de crédito e de preços. E levar tudo isso a ele por meio de uma boa comunicação", detalha.

Diretor de Mercadoria Não Alimentar do Carrefour Brasil, Karim Nabi concorda que houve uma pequena queda no consumo no varejo de uma forma geral, mas os supermercados foram os que menos sofreram. Já os bens duráveis, ao contrário, como geladeiras e móveis, passaram por dificuldades ao ficar de fora da lista de compras de muitos brasileiros.

"No nosso caso, tivemos crescimento nas vendas das lojas acima do mercado porque melhoramos os vários canais de vendas. Adaptamos as ofertas nos hipermercados. As pessoas estão à procura de mais promoções. Reforçamos ofertas do tipo ?leve 3, pague 2?", explica Nabi.

Nas empresas de telefonia móvel, setor que também entrou na mira dos brasileiros preocupados com a crise, os resultados são diferentes do que a pesquisa apontou."A indústria do celular continua crescendo. Em alguns casos em até dois dígitos. Para nos adaptarmos à crise, passamos a oferecer mais produtos customizados ao consumidor do pós-pago e promoções como a do ?fale 30 minutos e pague 1? no pré-pago. São ações que ajudam a não só manter, mas aumentar a receita", diz Erik Fernandes, diretor de Marketing da operadora Claro.

Diretor de Planejamento Estratégico da concorrente Vivo, Daniel Cardoso também diz que os resultados na empresa e no setor melhoram mês a mês. Mas, diante da realidade da crise, a empresa fez alguns ajustes. Em um deles, passou a oferecer cartões pré-pago com valores mínimos mais baixos, de R$ 3 e R$ 6. Antes, o menor valor era de R$ 12.

"Até as pessoas que antes da crise tinham problemas para recarregar o celular aproveitam promoções como essa. Nossa missão tem sido buscar alternativas para as pessoas continuarem a consumir, mas de forma ainda mais consciente."

PELO MUNDO

Na média mundial, as categorias menos afetadas pelo cortes de gastos foram as relacionadas ao universo tecnológico, como celular, TV por assinatura e internet. Vestuário e calçados, lazer, eletrodomésticos e móveis são as mais sensíveis ao momento econômico.

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