Brasileiro vai às compras cheio de dívidas

Especialistas dizem que existe espaço para endividamento, pois ainda há emprego e renda

Marcelo Rehder, de O Estado de S.Paulo,

17 de dezembro de 2011 | 18h46

SÃO PAULO - Os brasileiros vão às compras neste Natal endividados como nunca, mas com renda suficiente para assumir novos compromissos. Projeções da MB Associados indicam que o grau de endividamento, medido pela relação entre o estoque de dívidas e a renda anual das famílias, atingiu 43,2% este mês, 4 pontos porcentuais acima dos 39,2% de dezembro do ano passado.

No entanto, o orçamento familiar não foi tão castigado, segundo a consultoria. A parcela do salário mensal comprometida com o pagamento das prestações passou de 19,4%, em dezembro de 2010, para 22,4%, agora - alta de 3 pontos porcentuais.

"O consumidor se sente confortável em eventualmente tomar mais crédito, já que tem a perspectiva de continuar empregado e tendo aumento de renda, principalmente diante da elevação de 14% no valor do salário mínimo", diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Ele fez a projeção do endividamento para o fim do ano com base em dados do Banco Central (BC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de recorde, o nível de endividamento no Brasil ainda é relativamente baixo quando comparado com o de outros países, observa o economista. No Reino Unido, o endividamento correspondia a 171% da renda líquida das famílias em julho deste ano. No Canadá e no Japão, essa relação era de 148% e 126%, pela ordem. "A gente precisa ter em mente que o País começou a ter uma economia de crédito há pouco tempo."

O problema não é o nível de endividamento, e sim a sua composição, pondera Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban. "Hoje, tem mais cheque especial, mais conta garantida, e menos empréstimo de longo prazo, por causa do aperto dos compulsórios, que agora está sendo abrandado pelo governo."

Na avaliação de Troster, se o esforço do governo for suficiente para melhorar a composição do endividamento das família, ou seja, conseguir linhas mais baratas, a capacidade de endividamento vai aumentar. "Mas é preciso estar atento ao comprometimento do salário com as prestações, o que é determinante para a inadimplência", afirma o economista.

Sem alarme. Para o ex-diretor do BC José Júlio Senna, hoje sócio da MCM Consultores Associados, não há motivos para alarmismo, apesar da tendência de piora da inadimplência e do spread bancário. Ele argumenta que, tanto um quanto o outro, ainda estão longe dos níveis alcançados no auge da crise, na virada de 2008 para 2009.

"O governo certamente detectou a tendência de piora e aliviou o crédito, facilitou o consignado e os empréstimos de mais longo prazo, como o de automóveis", cita o economista. "Como as restrições no Brasil são muitas e variadas, qualquer alívio de política econômica sempre provoca algum estímulo."

A inadimplência vem em alta desde o início do ano e deve passar de 7% nos próximos meses. "Mas a tendência é voltar a cair ao longo de 2012", diz Sérgio Vale. "Além do fato que o principal cenário de crise na Europa vai ter passado, a inadimplência deverá desacelerar por causa da perspectiva de que a renda continue aumentando no ano que vem e da questão do salário mínimo, que vai ser forte", argumenta o economista da MB Associados.

Com o aumento de 14% no salário mínimo, a consultoria estima que a massa salarial deve crescer próximo de 10% em 2102, contra o pico de 14% que chegou este ano. "Apesar da indicação de desaceleração, é um número forte", frisa Vale. Se o crescimento do salário mínimo fosse nulo, a alta seria em torno de 8,7%.

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