Rafael Arbex | ESTADAO CONTEUDO
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Brasileiro vende bens para pagar despesa

Proporção de consumidores que passou a abrir mão das reservas para conter endividamento chega a 16%; em 2014, índice era de 8%

Anna Carolina Papp, Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 22h00

Aos 26 anos, desempregado e com uma dívida de R$ 30 mil, Bruno Gonçalves Silva se viu sem alternativa no ano passado. Para não ficar com o nome sujo na praça, ele foi obrigado colocar à venda a moto comprada em 2013. “Minha maior preocupação era não conseguir um novo emprego”, diz. Com o que recebeu pela moto, pagou parte da dívida e renegociou o restante, a juros mais altos. Assim como Silva, uma parcela cada vez maior de brasileiros tem sido obrigada a se desfazer de poupança e bens para pagar despesas do dia a dia. Hoje, 16% dos consumidores estão abrindo mão de alguma reserva para pagar as despesas correntes e não ficarem inadimplentes.

Embora tenha se mantido estável nos últimos meses, o número de brasileiros que usa algum tipo de poupança é bem maior do que no início da crise. No segundo trimestre de 2014, essa fatia era de 8%. “Em abril de 2016, chegamos ao nível máximo do uso de recurso de poupança, de 18,1% dos consumidores”, afirma Viviane Seda, coordenadora da sondagem do consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

O funcionário público Carlos Antônio da Silva, de 54 anos, ajudou a engrossar essa estatística. Ele teve de se desfazer de R$ 10 mil – vendeu um carro e retirou recursos da poupança – e mesmo assim continua endividado. Precisa arrumar R$ 5 mil para saldar o que ainda deve. “Já cortei tudo. O meu lazer e a minha alimentação não são como antes. O que eu ganho mal dá para comprar remédio.”

Silva, que vendeu a moto, também continua endividado, mas já respira um pouco mais aliviado porque acabou de conseguir um emprego. De volta ao mercado de trabalho, agora refaz as contas do seu orçamento para não cair em nova cilada.

Fim da bonança. Na nova realidade financeira das famílias, hábitos adquiridos nos tempos de bonança da economia saíram do orçamento mensal: produtos foram retirados das compras de supermercados, viagens adiadas e até o carro foi trocado pelo transporte público. “O brasileiro tem aprendido a replanejar suas contas e gerir melhor seus recursos, deixando de comprar produtos que não são considerados essenciais”, diz Leonardo Lopes, da Cred Limp, empresa de renegociação de dívida.

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O ajuste nas contas de Verônica Cristina, de 23 anos, começou com o desemprego do marido, há seis meses. Com o orçamento mais curto e um financiamento imobiliário, só restou cortar itens considerados supérfluos – como TV a cabo e internet – e vender dois carros para comprar um mais popular. “Também estamos tentando renegociar o crédito para a compra do imóvel, de R$ 1,3 mil por mês. Se conseguirmos reduzir a parcela em R$ 300, fará uma baita diferença”, afirma.

A exemplo de Verônica, a crise tem feito com que as famílias revisem o orçamento de diversas maneiras. Um levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Ibope ilustra o tamanho do ajuste feito pelos brasileiros. Segundo a pesquisa, 58% dos entrevistados alteraram o hábito de consumo desde o início da recessão. O levantamento também apurou que 80% reduziram despesas da casa porque o dinheiro estava curto. “O problema é que a recuperação econômica ainda não está clara”, diz Renato da Fonseca, gerente de pesquisa da CNI.

 

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