Brasileiros abrem contas com ''mulas financeiras''

Eles viajam em jatos privados ou helicópteros a cidades como Itu e Ribeirão Preto. Hospedam-se nos melhores hotéis de São Paulo, Rio e Brasília. São as ?mulas financeiras?, banqueiros que percorrem o Brasil em busca de clientes para abertura de contas secretas na Suíça. Em entrevistas com uma dezena de ex-banqueiros, investigadores e doleiros, o Estado reconstituiu como funciona a rede. Por um acordo com investigadores em Genebra, nomes dos clientes, bancos, doleiros e banqueiros serão omitidos. As mulas oferecem todas as facilidades, vêm com formulário de abertura de contas, propostas de aplicações, colhem assinatura e a conta secreta na Suíça é aberta. Exigem apenas o passaporte válido e um histórico do cliente, para provar que o dinheiro não vem de corrupção, drogas ou outros crimes. Os gerentes maquilam as informações sobre a origem dos recursos até chegar num formato que será aceito. Em um caso recente, o banco omitiu o fato de o cliente ser funcionário público para aparentar que os lucros eram gerados por uma de suas fazendas. A fase seguinte é indicar um doleiro de confiança do banco para a transferência.Para o trabalho, as mulas financeiras recebem preparo especial, como aula de português. Ao desembarcar no Brasil, recebe celular do banco. A cada viagem, muda de hotel. Em um ano, um gerente pode fazer até quatro viagens em visita a clientes. Em média, um banco suíço tem 20 pessoas responsáveis por contas de brasileiros. As mulas dificilmente viajam com documentos, temendo serem detidas. A cada dia, um motorista de taxi de confiança vai ao correio enviar os documentos de abertura de contas à sede dos bancos na Suíça. Após um dia de reuniões com clientes, cada mula preparara um relatório de visitas e os documentos para serem enviados à Suíça. Cópias são destruídas. Segundo pessoa envolvida no esquema, o gerente é treinado a atuar em um plano de emergência. A polícia, em geral, permite uma ligação. Esse telefonema é feito ao departamento jurídico do banco e a primeira medida é desativar o acesso à conta de clientes.Outra ordem é não revelar nada e esperar um advogado. O gerente fica impedido de voltar ao seu escritório na Suíça, mesmo que retorne ao país. O banco continua pagando seu salário, mesmo que ele não trabalhe.

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