Brasileiros investem cada vez mais no exterior

Pesquisa do BC mostra aumento de aplicações financeirasde pessoas físicas e de aportes de empresas em outros países

FERNANDO LADEIRA, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h06

Ano após ano, os brasileiros estão acumulando investimentos cada vez mais expressivos no exterior. Essa tendência se reflete em números apresentados pelo Banco Central. Especialistas dizem que, entre outros motivos, esse movimento se acelerou desde a crise econômica mundial de 2008 e foi influenciado por problemas internos do Brasil.

Recentemente, o Banco Central divulgou a pesquisa denominada "Capitais Brasileiros no Exterior". Essa pesquisa faz parte de uma declaração obrigatória para pessoas físicas e jurídicas com ativos no exterior iguais ou superiores a US$ 100 mil.

O documento mostrou que o estoque de ativos brasileiros no exterior cresceu 9,99% em 2013 na comparação com 2012, para US$ 391,57 bilhões. Esse número engloba os fundos de investimento e o investimento direto (aporte de empresas, em produção).

Apesar de a taxa de crescimento ter mostrado desaceleração (em 2012, o aumento havia sido de 27,01%), a quantia representa mais um recorde, seguindo a tendência que ocorre desde 2001, quando a pesquisa começou a ser divulgada pelo Banco Central.

Investidores. Na mesma linha, o número de declarantes também aumentou e alcançou novo recorde. Em 2013, o crescimento foi de 15,6%, para 30.573 declarantes, sendo 27.014 pessoas físicas e 3.559 pessoas jurídicas.

Em 2012, o avanço havia sido de 21,70%, para 26.456 declarantes, sendo 23.199 pessoas físicas e 3.257 pessoas jurídicas.

Na primeira pesquisa, em 2001, o estoque de ativos brasileiros no exterior somava US$ 152,21 bilhões, com 13.404 declarantes.

Os investimentos no exterior em carteira, que englobam ações e títulos de renda fixa, somaram US$ 25,43 bilhões no fim de 2013, segundo a pesquisa do Banco Central, acima dos US$ 22,12 bilhões do ano anterior. Ainda assim, o investimento estrangeiro em carteira no Brasil ainda superou esse montante, com US$ 34,66 bilhões.

Moeda valorizada. Marcelo Karvelis, sócio da Claritas Investimentos, disse ter observado um aumento no interesse dos investidores brasileiros pelo exterior principalmente nos dois últimos anos.

Com a moeda brasileira em um nível de apreciação muito forte, a expectativa passou a ser de depreciação do real, explicou. Ele ainda lembrou que a maioria dos investimentos no Brasil tem encontrado dificuldade em superar o rendimento do CDI (Certificado de Depósito Interbancário).

"A primeira razão para buscar o exterior é a diversificação do risco", disse Karvelis. "Os Estados Unidos saíram da crise e o mundo vem apresentando taxas de crescimento mais fortes que o Brasil."

De fato, alguns grandes fundos de investimento estão dando prioridade à alocação de recursos no exterior. O fundo Verde, da Credit Suisse Hedging-Griffo, revelou em carta sobre o desempenho de julho deste ano ter uma posição líquida comprada em ações fora do Brasil de aproximadamente 19%.

Na época, o fundo tinha patrimônio líquido de R$ 3,36 bilhões e a exposição líquida no Brasil estava zerada. Esse fundo é gerido por Luís Stuhlberger, um dos mais respeitados gestores do mercado por causa dos elevados retornos desde o início do fundo, que foi aberto em 1997.

Investimento produtivo. Do estoque total investido pelos brasileiros em 2013, segundo essa pesquisa do Banco Central, o item que mais chama atenção é o investimento brasileiro direto no exterior, que bate sucessivos recordes e somou US$ 295,38 bilhões.

Dentro desse grupo, o setor cujas empresas mais recebem investimentos é o de serviços, com US$ 149,20 bilhões.

Para Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet), esse aumento é um reflexo do contexto global, no qual os países em desenvolvimento estão cada vez mais investindo no exterior.

"Essa tendência deve se manter. Com isso, aumenta a competitividade, aumentam as exportações e as empresas passam a incorporar novas qualidades do mercado internacional", disse Lima.

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