Brasileiros saem frustrados da reunião da OIC

A delegação brasileira que participou da reunião semestral da Organização Internacional do Café (OIC), encerrada nesta sexta-feira em Londres, avaliou com grande pessimismo os resultados do encontro, que foi marcado por poucas novidades.Além do detalhamento do programa de qualidade nas exportações, que deve ser implementado a partir do dia primeiro de outubro e é visto com muito ceticismo pelo mercado e pelos próprios países produtores, os delegados dos quarenta países membros da organização discutiram formas de tentar estimular a promoção do consumo do café e outros temas burocráticos.?Papel decorativo?"A OIC está procurando uma razão para existir, pois não tem condições de ter impacto no que realmente interessa, que é a recuperação dos preços do café", disse à reportagem um graduado representante do setor privado brasileiro. "Pelo que vimos aqui, a organização vai ficar cada vez mais limitada a um papel de centro de debates, sem peso na implementação de políticas para o setor."Outro representante brasileiro, ligado ao governo, afirmou que a OIC tem, cada vez mais, um papel decorativo. "Mas se a gente não vem aqui participar dessas reuniões chatíssimas, e na maioria dos casos inúteis, corremos o perigo de os outros países aprovarem medidas nocivas aos interesses brasileiros." Imposto sobre as exportaçõesMas, se nas reuniões oficiais o clima era de desânimo, pelo menos nos corredores da sede da OIC surgiu uma proposta que, se progredir, poderá gerar muita controvérsia no futuro. O superintendente do Conselho Nacional do Café, Manoel Bertone, apresentou a vários delegados a idéia da criação de um imposto sobre as exportações de café.A receita gerada por esse tributo - que incidiria sobre os importadores - seria usada pelos governos dos países produtores para financiar programas para os seus cafeicultores. "A receita poderá ser usada para o que cada país achar conveniente, como financiamento de safra, estocagem ou até erradicação", afirmou Bertone. "Mas esse imposto somente fará sentido se todos os países o adotarem, de maneira uniforme."Segundo ele, o imposto seria uma maneira de transferir uma pequena parte dos enormes lucros das torrefadoras dos países desenvolvidos para os produtores. "Ao contrário de campanhas que tentam convencer os grandes importadores a cederem parte de seus ganhos para os produtores, como a recentemente lançada pela Oxfam, esse imposto traria um repasse de parte dos ganhos para os cafeicultores", disse. "É ilusão esperar pela boa vontade das grandes multinacionais."SimpatiaBertone salienta que a idéia é ainda embrionária. "Mas vamos supor que esse imposto arrecade dez dólares por saca exportada. Isso, no Brasil, renderia uma soma de cerca de US$ 250 milhões para o setor", disse. "Em países produtores pobres, na África e na Ásia, seria um recurso formidável de apoio aos produtores, que vêm enfrentando sérias dificuldades."Outros delegados brasileiros parecem ter acolhido a idéia com simpatia. "Ninguém gosta de falar em novos impostos, mas não há dúvida de que, para os importadores, o custo adicional seria pequeno, e o benefício para a indústria como um todo poderá ser muito positivo", disse o diretor-geral da Cecafé, Guilherme Braga Abreu Pires Filho."Trata-se pelo menos de uma maneira de tentar buscar um maior equilíbrio nos lucros desse mercado, acho que a idéia pode ser desenvolvida", afirmou Mauro Moitinho Malta, diretor-executivo da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel).Bertone ressaltou que, por enquanto, está apresentando a proposta de maneira informal a seus colegas brasileiros e a alguns estrangeiros. A partir do próximo ano, após a posse do novo governo brasileiro e dependendo da receptividade à sua idéia, a criação de um imposto sobre as exportações de café poderá ingressar num caminho mais oficial. Ele observou, no entanto, que sua eventual aprovação teria que passar pela OIC, o que poderá demandar muito tempo.

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