Bresser defende mudança nas contas da Previdência

O ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Ciência e Tecnologia, Luiz Carlos Bresser-Pereira, se mostrou a favor da medida provisória que vai transferir para o Tesouro cerca de R$ 18 bilhões de gastos da Previdência Social.Segundo ele, a MP é uma "coisa boa", uma vez que uma parte importante do déficit da Previdência não se refere aos gastos da Previdência, mas gastos de assistência social. "É uma ajuste contábil, não muda nada o tamanho do déficit, mas faz com que as contas sejam mais bem analisadas", afirmou, de Paris, em entrevista à Agência Estado. "(A MP) traz a vantagem de maior precisão contábil", reforçou. Bresser também vê como possibilidade viável para cobrir o déficit da Previdência a idéia do governo de usar parte da CPMF. "Existe a velha tese de que a Previdência devia ser financiada não com imposto sobre os salários e sim por impostos diretos ou indiretos, como é o caso da CPMF. Você pode financiar de um jeito ou de outro a Previdência Social", explicou. PACO ex-ministro foi mais crítico ao falar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "O PAC é um equívoco simpático, mas é um equívoco", disse. Para ele, o PAC é positivo por possibilitar um planejamento mais preciso dos investimentos públicos. "Mas o projeto não resolve nenhum problema fundamental da economia brasileira", salientou. Na opinião de Bresser, o PAC se parece com os pacotes da época dos militares e com o "Avança Brasil", um programa criado no governo de Fernando Henrique Cardoso que visava consolidar a estabilidade econômica e atrair mais investimentos. Segundo o ex-ministro, os três problemas fundamentais da economia hoje são o fiscal, do câmbio e dos juros e o PAC não ataca diretamente nenhum deles. "O câmbio está extremamente valorizado, vítima da doença holandesa", disse. A doença holandesa é um termo econômico que se refere à relação entre a exploração de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro. A situação leva à valorização da moeda de um país, tornando os produtos manufaturados menos competitivos. Bresser defende o câmbio sujo, com moeda flutuante, porém administrada. Bresser acredita que somente o PAC não é suficiente para impulsionar o crescimento do país. "É preciso um fortíssimo ajuste fiscal, em vez de ficar com PACs, somar isso uma mudança no sistema financeiro para acabar com o tabelamento das taxas de juros", sugeriu. Ele também defende o fim da taxa básica de juros, a Selic (atualmente em 13% ao ano). "É preciso uma reforma financeira para acabar com esse esquema da Selic", acrescentou. Segundo ele, não está havendo queda na taxa de juro real no Brasil. "Não há trajetória de queda nenhuma no juro (real). Não há perspectiva de que juro real fique abaixo de 9%", afirmou o ex-ministro, apesar de no mercado alguns economistas calcularem que a taxa já ronda esse patamar com base na inflação ex-ante. "Se eu estivesse na pele do Lula, eu jamais faria isso o que está sendo feito. O que eu teria feito é exatamente o contrário. Eu estaria dizendo: ´Eu quero fazer uma mudança geral na política macroeconomia brasileira. Eu quero fazer um grande ajuste fiscal, acertar os juros e acertar o câmbio. Eu quero fazer o que a Argentina fez, eu quero crescer como a Argentina ou como a China ou como a Índia ou como a Tailândia. E não como o Brasil ou o México", afirmou Bresser-Pereira.Para o ex-ministro, nossos vizinhos argentinos são um modelo a ser seguido pelo Brasil. "Hoje não há dúvida (de que o país é um exemplo). A história de que a Argentina está recuperando as perdas da crise é uma tolice. Ainda que a Argentina tenha problema de inflação (...), eles têm superávit fiscal, a taxa de juros deles está em torno de zero e a taxa de câmbio deles está perfeitamente competitiva", justificou.

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