Brexit e seguro

A saída da Grã-Bretanha da União Europeia terá consequências dramáticas para o mundo inteiro e especialmente para os próprios britânicos

*Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2016 | 05h00

A saída da Grã-Bretanha da União Europeia terá consequências ainda não visíveis, para não falar nas já sentidas, dramáticas para o mundo inteiro e especialmente para os próprios britânicos.

O amadorismo com que o assunto foi tratado lembra outros eventos normalmente acontecidos em locais menos desenvolvidos. Mas não, o fato incontestável é que aconteceu na Grã-Bretanha, o berço da democracia e de boa parte do pensamento político moderno, o que mostra que atravessamos um momento delicado, não só no Brasil, ou na América Latina, mas em nações com muito mais poder e riqueza do que a nossa.

Alguns prejuízos não esperaram nem o final da apuração para se materializarem. A libra caiu para o menor valor em relação ao dólar em décadas. As ações dos bancos britânicos desabaram. O governo britânico caiu, a oposição se desmoralizou, as forças separatistas escocesas e irlandesas despertaram e até a pequena Gibraltar, um rochedo encravado na costa espanhola, está preocupado com as consequências da votação pela saída da União Europeia.

França e Alemanha já disputam as sobras, oferecendo condições especiais para os que desejarem deixar a City e se instalarem do outro lado do Canal da Mancha. Afinal, negócios são negócios e se os britânicos desejam inverter a velha tendência de concentrar em Londres boa parte do dinheiro do mundo, não serão franceses e alemães que se oporão ao movimento, que tem tudo para levar bilhões de euros para seus países e milhares de profissionais altamente qualificados para melhorar sua força de trabalho.

Já é absolutamente certo que os bancos instalados na Grã-Bretanha sofrerão por conta da saída do país da União Europeia. E outros operadores do mercado financeiro poderão ser bastante afetados. Para não falar nos sinais cada vez mais claros de que as negociações com a Europa serão muito duras.

Londres é o maior centro segurador do mundo. O Lloyds movimenta parte importante dos negócios de seguros e resseguros, seja direta, seja indiretamente. Com as barreiras que serão fatalmente impostas às relações com as grandes seguradoras e resseguradoras europeias, é de se esperar pelo menos o aumento do preço dos negócios originados na Grã-Bretanha.

De outro lado, a Europa concentra algumas das maiores empresas do setor e elas não ficarão paradas esperando o bonde passar. Concorrência é parte da atividade econômica e estas companhias vão acelerar todas as ações que lhes possibilitem crescer em cima do mercado britânico, afetado pelo encarecimento de suas operações.

Como isso repercutirá no Brasil ainda é cedo para ser claramente compreendido. De um lado, o aumento da concorrência entre as seguradoras europeias e britânicas pode significar uma redução importante no preço dos resseguros. Afinal, o país tem um mercado com forte potencial de crescimento e é das poucas regiões do planeta onde isso ainda acontece, o que o torna estratégico para os grandes grupos seguradores. De outro, pode acontecer o contrário e o preço dos resseguros aumentar, em função das operações nos países desenvolvidos se tornarem deficitárias e serem compensadas com as margens de países como o Brasil.

Seja como for, boa parte das carteiras de seguros brasileiras necessitam muito pouco ou nenhum resseguro. É o caso dos seguros de vida em grupo, seguros de veículos, e planos de previdência complementar.

Entre os seguros com boas chances de crescimento depois da crise, os pacotes residenciais e empresariais também têm o capital médio dentro da retenção das grandes seguradoras em operação no país.

Grosso modo, o que acontecer em função do Brexit deve ter impacto direto limitado na atividade seguradora brasileira. Apenas os grandes riscos, os pacotes mundiais e alguns seguros de responsabilidade civil devem ser afetados. Mas os profissionais do setor não podem ficar alheios aos movimentos que ocorrerão. Se não for por nada, será uma boa oportunidade de se aprender o que deve e o que não deve ser feito.

*ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA E SECRETÁRIO GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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