André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Brexit pode adiar corte de juros no Brasil, diz consultoria dos EUA

Para a Pantheon Macroeconomics, o esperado corte da Selic pode ficar para novembro ou mesmo para janeiro de 2017 devido à tendência de valorização do dólar

Altamiro Silva Junior e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2016 | 10h07

NOVA YORK E LONDRES - A decisão dos britânicos de deixar a União Europeia vai provocar uma reprecificação dos preços dos ativos globais, por conta da busca de papéis mais seguros, que terá impactos imediatos no mercado financeiro da América Latina, principalmente nas moedas. Brasil, Colômbia e México são as economias que devem ser mais influenciadas neste primeiro momento e há chances de a desvalorização do real levar o Banco Central a adiar a queda da Selic, afirma a consultoria dos Estados Unidos, Pantheon Macroeconomics, nesta sexta-feira.

"No Brasil, nossa previsão atual de que os cortes de juros comecem em agosto ou setembro está ameaçada", ressalta o economista da consultoria para a América Latina, Andres Abadia. Para ele, o esperado corte da Selic pode ficar para novembro ou mesmo para janeiro de 2017. A tendência é que o dólar se valorize no país e em outras economias, com os investidores fugindo do risco, afetando as expectativas para a inflação. No caso do México, o governo pode ser forçado a novas altas de juros, ressalta o economista. "O Brexit vai tornar a vida dos bancos centrais mais complicada", afirma ele.

Já pelo lado comercial, o economista da Pantheon acredita que o impacto será menor, pois a América Latina tem bem mais fluxos com a China, Estados Unidos e Europa continental do que com o Reino Unido. Nesse caso, uma das possibilidades é que a piora da confiança do consumidor nessas regiões leve a menor gasto com consumo e afete a demanda por produtos dos países latino-americanos, ressalta Abadia.

Para a Pantheon Macroeconomics, se os efeitos diretos do Brexit na economia real dos países da América Latina são mais difíceis de quantificar, os impactos no mercado financeiro são "imediatos e significativos". Ao mudar os preços dos ativos, a decisão dos ingleses pode ter efeito, por esse canal, na economia, por meio de pressões adicionais na inflação com a desvalorização das moedas e alta de juros ou adiamento de cortes para lidar com preços subindo.

Emergentes. Os ativos de economias emergentes devem sofrer ao longo dos próximos dias com a decisão dos eleitores britânicos de deixar a União Europeia. A opinião é do economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, Neil Shearing. O analista explica que a busca por ativos de maior qualidade - como os títulos da dívida dos Estados Unidos e Japão - já gera uma forte onda vendedora que atinge uma diversos ativos, inclusive nos mercados emergentes.

"O voto dos britânicos para deixar a UE já criou um movimento de busca por qualidade. Mercados emergentes que têm maior liquidez, déficit em conta corrente, dívida em moeda estrangeira ou grandes laços com o Reino Unido são os que devem sofrer as maiores quedas", diz o analista, ao citar México, África do Sul, Malásia e Polônia como exemplos de potenciais vítimas do movimento. O Brasil não é citado nominalmente.

Shearing destaca a surpresa com o resultado das urnas - já que as pesquisas recentes mostravam chance de vitória do "Permanecer" - e diz que a economia ingressa agora em um período de "substancial incerteza". "A resposta do mercado é a previsível busca por qualidade como títulos da dívida dos EUA e Japão e outros ativos em dólar e iene", cita o economista.

Apesar do efeito negativo no mercado financeiro, o economista prevê que a influência sobre a atividade econômica nos emergentes tende a ser menos intensa. "É provável que o impacto direto na economia do mundo emergente será menor que muitos temem", diz, ao explicar que os laços comerciais entre os britânicos e as economias emergentes são relativamente limitados.

Cálculo da Capital Economics mostra que se a economia britânica sofrer uma severa recessão com queda de 10% nas importações, o efeito sobre as exportações de países emergentes deve ser equivalente a 0,1% do Produto Interno Bruto agregado dos emergentes.

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