SPENCER PLATT | AFP
SPENCER PLATT | AFP

Brexit pode afetar preço de commodities

Para analistas, fuga de capital para ativos menos arriscados e eventual queda no preço de matérias-primas terá efeitos negativos no Brasil

O Estado de S.Paulo

25 Junho 2016 | 05h00

A decisão do Reino Unido de se retirar da União Europeia deve afetar os mercados emergentes, como o Brasil, mas o efeito nesses países será menor do que o observado na crise do euro de 2011, na avaliação de economistas. O País pode ser afetado por dois canais: fuga de investidores para ativos de qualidade e queda do preço das commodities.

Analistas do banco Credit Suisse afirmam que grandes exportadores de matérias-primas tendem a sofrer especialmente pelo esperado efeito preço, mas a atuação relevante do Banco Central Europeu (BCE) no mercado terá poder de amenizar os impactos na comparação do momento atual ao cenário de cinco anos atrás.

“A vitória do ‘sair’ no referendot fará com que investidores continuem se desfazendo dos ativos considerados mais arriscados como resposta às preocupações de o que o ‘Brexit’ trará sobre o crescimento da Europa e a coesão política na União Europeia e na zona do euro. Ativos emergentes serão atingidos tanto porque constituem um ativo de risco e serão levados para baixo com essa aversão ao risco como também porque os preços de commodities ficarão baixos, o que muda a perspectiva para muitos ativos emergentes”, citam os analistas do banco suíço.

Na avaliação do gestor de renda variável do Janus Capital Group, Dan Raghoonundon, a decisão do Reino Unido é negativa para o Brasil especialmente em um momento em que o País precisa de capital externo para sair da atual crise econômica. “O Brasil necessita de um esforço significativo de privatizações de ativos e serviços para desacelerar a trajetória de sua dívida e tal movimento pode ser atrasado se o apetite pelo risco entrar num período prolongado de hibernação”, afirmou.

Para Raghoonundon, o resultado do referendo no Reino Unido terá impacto nos fluxos globais de capitais e também deve adiar o ciclo de aperto do juro nos Estados Unidos. “O Brasil precisa de recursos para financiar seu déficit próximo de 10% do PIB, o segundo maior entre os países do G-20”, diz. “Portanto, uma retração nos fluxos globais é negativa ao País.”

A holding financeira Nomura lembra que o Brasil é o país da América Latina com maior elo comercial com a União Europeia, que responde por quase 18% das exportações. “Em termos relativos dentro da América Latina, os ambientes político e econômico ainda frágeis no Brasil sugerem fraqueza. Entretanto, tal fraqueza é contida pelo pequeno déficit em conta corrente e contas externas sólidas”, diz o relatório da holding.

Do ponto de vista da política monetária, a Nomura acredita que o Brexit reforça as chances de o Banco Central se manter em modo de espera nas próximas reuniões. A previsão do grupo é de um corte de 0,5 ponto porcentual na taxa Selic em outubro e outro de mesma magnitude em dezembro. “Acreditamos que o potencial de um real mais fraco pode atrasar a convergência da inflação para a meta, sugerindo uma Selic estável por mais tempo.”

O economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, diz que, embora o primeiro choque, com a saída do Reino Unido, seja ruim para o Brasil, ele deve se dissipar. “E isso pode ter pouco reflexo na economia real, ao contrário da crise de 2008”, avaliou. Para o Brasil, acrescentou, esse quadro também pode ser pior para a retomada do crescimento, mas sem efeitos muito danosos. “O Brasil está um pouco fora do epicentro.” / FERNANDO NAKAGAWA, ÁLVARO CAMPOS, MARIA REGINA SILVA E MATEUS FAGUNDES

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