Bric-à-brac

Um clube que inclui países tão radicalmente diferentes como Brasil, China, Índia e Rússia tem algum sentido? Os líderes do grupo Bric - Brasil, Rússia, Índia e China - realizaram na terça-feira, 16 de junho, sua primeira reunião de cúpula na cidade de Ecaterimburgo, na Rússia. É fácil imaginar Jim O?Neill, o economista do Goldman Sachs que inventou o termo Bric em 2001, sorrindo ao lado do presidente chinês, Hu Jintao, enquanto rabisca algumas anotações para uma versão mais atualizada de Present at the Creation, o livro de memórias do ex-secretário de Estado americano Dean Acheson sobre a constituição da ordem global na época da Guerra Fria.O momento escolhido para essa cúpula, poucas semanas antes da chegada do presidente Barack Obama a Moscou e da reunião do G-8 em L?Aquila, na Itália, não é acidental. O evento é o ponto culminante de meses de ações e declamações políticas, em grande parte construtivas, dos representantes dos Brics, às quais foi dada ampla publicidade, que demonstraram que o controle da economia mundial não é mais apanágio exclusivo do chamado G-3 - Estados Unidos, União Europeia e Japão.Entretanto, serão necessárias mais do que fotos, releases repletos de elevados princípios e relatórios de pesquisa da Goldman Sachs, para transformar os Brics nos arquitetos do sistema financeiro internacional pós-crise, e muito menos nos senhores da nova ordem global. Além disso, não está muito claro se a Rússia, castigada por uma grave recessão e pela constante dependência das exportações de energia, está preparada para desempenhar um papel de grande importância na formulação do que virá a seguir.Os países do Bric estão indignados, e com razão, com as práticas temerárias das instituições financeiras e dos governos ocidentais, que desencadearam uma destruição da riqueza sem precedentes, uma correção duríssima (embora incompleta) dos desequilíbrios globais e uma dolorosa queda da produção industrial e do comércio internacional. A reavaliação do risco nos últimos 12 meses afetou o valor dos ativos dos Brics (apesar dos efeitos de uma recente recuperação das ações nos mercados emergentes) e asfixiou benéficos fluxos financeiros e de investimentos.Com maciças posições em passivos fiscais em dólares e em reservas cambiais, os Brics estão particularmente preocupados com o crescimento dos déficits americanos e com a possibilidade de que Washington tente abrandar o ônus de sua dívida enfraquecendo o dólar.Mas será que essa lista de preocupações dos Brics - e o desejo de ter uma voz mais forte em instituições como o G-20, o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio - está acompanhada por uma visão do futuro? É duvidoso.O segredo nem tão bem guardado de Ecaterimburgo é que os Brics não têm um programa político comum. Rússia e China divulgaram propostas detalhadas para reduzir a dependência do dólar como principal moeda de reserva mundial. Mas é provável que nem o rublo nem o yuan cheguem a ser livremente conversíveis no curto prazo, e a liquidez em ambas as moedas inexiste em comparação com o dólar. China, Rússia e Brasil poderão falar da utilização dos novos bônus emitidos pelo FMI para diversificar as reservas de seus respectivos bancos centrais (em detrimento dos bônus do Tesouro americano), mas evitarão medidas precipitadas que comprometam o valor de suas posições no futuro.Além disso, estão longe de ser um grupo homogêneo. Enquanto os russos aproveitam todas as oportunidades de puxar as orelhas de Washington, os outros querem estreitar os vínculos com o governo Obama.Hu Jintao, preocupado com a crise global e com as ameaças à estabilidade interna da China e à sua vitalidade econômica, provavelmente não estará disposto a se exibir em matéria geopolítica. (Foi a China que bloqueou o endosso à invasão da Rússia na Geórgia, em agosto do ano passado, na cúpula de Xangai, sobre a Organização de Cooperação realizada em Dushanbe, no Tajiquistão.)O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, têm suas prioridades: manter o crescimento, reduzir o impacto social da crise e acelerar as reformas internas. Eles não estão interessados em causar problemas.A Rússia parece cada vez mais um elemento à parte no grupo - e não apenas porque a economia russa está em condições piores do que os outros. (O FMI projeta queda de 6,5% do seu PIB em 2009.) Em grande parte, o problema é a crescente adequação do país à sua pior crise econômica desde agosto de 1998. Agora que o barril de petróleo voltou a ser cotado acima de US$ 70, as esperanças das tão necessárias reformas estruturais estão se dissipando.À parte a notável exceção do ministro das Finanças, Alexei Kudrin, o recente Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo foi dominado pelos comentários dos representantes do governo sobre o possível fim da crise. Eles apresentaram escassos detalhes sobre o tratamento dos pontos críticos do setor bancário russo, da recessão cada vez maior nos principais países da UE, que comprometerão a demanda por energia russa, e pelas exportações de matérias-primas, ou o considerável aumento da tensão social em cidades menores cuja economia gira em torno de uma única companhia, como Pikalevo, onde os trabalhadores bloquearam as estradas, no início deste mês. Com esses problemas ainda sem solução do lado russo, a pompa e circunstância da cúpula dos Brics poderá tornar-se muito mais cara do que os anfitriões haviam previsto. *Andrew S. Weiss é diretor do Centro para a Rússia e a Eurásia da Rand Corporation. Ocupou cargos no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, no Departamento de Estado e no Departamento da Defesa, nos governos de Bill Clinton e George W.Bush.Reproduzido com a permissão da revista Foreign Policy n.º 173 (julho/agosto de 2009) www.foreignpolicy.com. copyright 2009 Washingtonpost.Newsweek Interactive LLC

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.