Andre Dusek/AE-19/1/2011
Andre Dusek/AE-19/1/2011

Brics terão reunião paralela no G-20

China e Brasil já recusam propostas da França sobre commodities e câmbio; oposição entre ricos e emergentes já marca o encontro

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ministros de Economia do Brasil, Rússia, Índia e China - os países Bric -, além de África do Sul, realizarão na sexta-feira, em Paris, uma reunião paralela à agenda do G-20 ministerial, promovida pelo governo francês. A intenção oficial do encontro é "trocar ideias" sobre as propostas que serão levadas às mesas de trabalho até o sábado, mas na prática o grupo discutirá restrições à questão cambial e aos indicadores de desequilíbrios, impostas pela China, e à regulação do mercado de commodities, que desagradam ao Brasil.

O encontro dos Brics em Paris, que acontecerá em alto nível, com a presença do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do assessor Internacional do ministério, embaixador Carlos Cozendey, sintetiza o estado atual das negociações no interior do G-20: a divisão clara entre países desenvolvidos e emergentes antes mesmo do início da chegada das autoridades a Paris. Nos bastidores, os negociadores da França se mostram preocupados com a oposição dos interesses entre os dois grupos.

As divergências começam pelo ponto mais urgente da reunião de sábado do G-20: a definição dos indicadores de desequilíbrio macroeconômico.

Pela vontade do governo francês, um acordo seria selado ainda em Paris, permitindo que as demais reuniões intermediárias até o G-20 de Cannes, em novembro, tivessem outros temas. Pela proposta francesa, chamada de "linhas diretivas", além do comércio exterior, a dívida pública e o desequilíbrio das contas correntes seriam critérios a serem incluídos nos indicadores. Tudo para reequilibrar o balanço dos modelos macroeconômicos adotados por ricos e emergentes. "A China exporta, a Europa consome e os Estados Unidos consomem e se endividam", resumiu a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, criticando a conjuntura atual.

A Alemanha, por exemplo, tenta incluir na discussão questões ambientais - como o balanço de carbono emitido - e econômicas, como a flexibilidade da taxa de câmbio, critérios que China e Índia não aceitam sequer discutir.

Os apelos por mais equilíbrio não estão sensibilizando China e Índia, cujos negociadores consideram as propostas como intrusão em suas políticas econômicas. Os dois países não aceitam que seu modelo - baseado no câmbio favorável e nas exportações crescentes - seja posto em questão. Já o Brasil, com apoio da Argentina, não aceita interferências no mercado de matérias-primas. Ontem, em Brasília, Guido Mantega voltou a descartar qualquer possibilidade de acordo sobre a proposta francesa, que projeta regulação dos derivados de matérias-primas nos mercados financeiros. "O Brasil é totalmente contra qualquer mecanismo para controlar ou regular os preços das commodities", disse o ministro.

Commodities. Mantega aproveitou ainda para reverter o jogo, atribuindo o aumento do preço das matérias-primas agrícolas, que segundo o Banco Mundial foi de 15% entre outubro de 2010 e janeiro de 2011, às "barreiras comerciais" impostas por países desenvolvidos - uma forma de pressionar por avanços na Rodada de Doha e no acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. "Uma forma de manter em baixa os preços das commodities seria encorajar uma produção maior nos países emergentes e pobres", disse.

Apesar dos pontos de desacordo, os Brics também não levarão um parecer conjunto à reunião do G-20, segundo o Estado apurou. Exemplo disso é que, na questão cambial, o Brasil se mostra independente, ao mesmo tempo crítico dos EUA e do dólar como moeda de reserva internacional e do câmbio controlado e subvalorizado do yuan, da China.

É justamente na questão cambial que o Brasil se mostra mais próximo de apoiar as propostas da França, que deseja o alargamento da cesta de moedas de referência do FMI. Ontem, Mantega deu mais uma vez sinais públicos de apoio à iniciativa.

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