STEPHANIE ROSENBLOOM | NYT
STEPHANIE ROSENBLOOM | NYT

Briga de classes a 10 mil metros de altitude

Aéreas dos EUA criam 'última classe' em que usuários não podem usar compartimento de bagagem nem marcar assento

The Economist

25 Novembro 2016 | 05h00


Nos últimos anos, as três maiores companhias aéreas dos Estados Unidos – Delta, United e American – vêm apostando na segmentação dos consumidores, dividindo-os entre os passageiros ricaços, abastados, remediados e aqueles que vão se virando. Mais recentemente, na tentativa de competir com as tarifas mais baixas de companhias que cobram por todo tipo de serviço não essencial, como Spirit e Frontier, as três grandes aprofundaram a coisa e criaram uma categoria para os consumidores que, supostamente, “estão na lona”. As aéreas a chamam de “classe econômica básica”. Entre os passageiros, ela já é conhecida como “última classe”.

Inicialmente, os comunicados divulgados pelas companhias davam a entender que, para se beneficiar dos preços dessa última classe, os passageiros teriam de fazer apenas sacrifícios modestos. A maior perda seria que, ao comprar uma passagem, a pessoa não poderia escolher seu assento. Para os que viajam com a família isso talvez seja uma inconveniência excessiva, tendo em vista o risco de serem obrigados a sentar longe de seus entes queridos. Para os que viajam sozinhos, o maior desconforto seria ficar numa poltrona do meio, algo que está longe de ser ideal, mas que pode ser aceitável para quem busca passagens mais baratas.

As coisas mudaram de figura na semana passada, quando a United, numa conversa com investidores, soltou a bomba: os passageiros da classe econômica básica não terão direito a usar os compartimentos de bagagem situados acima das poltronas. Em outras palavras, só poderão embarcar no avião com volumes pequenos, que deverão acomodar junto aos pés, embaixo do assento da frente.

Em tese, a mudança faz sentido tanto para as companhias aéreas quanto para os passageiros. Se as bagagens mais pesadas aumentam o consumo de combustível da aeronave e o espaço dos compartimentos superiores é sempre muito disputado, por que alguém que vai passar um ou dois dias fora e leva consigo apenas uma pequena mochila tem de pagar o mesmo preço que alguém que embarca com uma mala de mão que é um verdadeiro trambolho? “Os consumidores nos dizem que querem mais opções, e a classe econômica básica é uma resposta a esse desejo”, disse a vice-presidente executiva e diretora comercial da United, Julia Haywood, num comunicado à imprensa.

Alguns desconfiam que há intenções menos inocentes por trás da decisão. Com passagens mais baratas, a United deve saltar para as primeiras posições nas listas de preços geradas por sites como Expedia e Kayak, em que o consumidor pode comparar os valores cobrados por diversas companhias aéreas. Acontece que é só depois de concluir a compra da passagem que o consumidor se dá conta das restrições a que os passageiros da classe econômica básica estão sujeitos, como, por exemplo, a de que precisam pagar uma tarifa adicional para despachar suas malas.

Em certos casos, é possível que isso resulte num preço final mais elevado que o de uma passagem na classe econômica tradicional, em que a pessoa acomoda a mala de mão no compartimento superior da cabine sem ter de pagar mais por isso. A United diz esperar que a segmentação da classe econômica aumente seu faturamento anual em US$ 1 bilhão. Será interessante observar o quanto desse montante virá de tarifas adicionais desembolsadas por passageiros que não sabiam no que estavam se metendo.

A classe econômica básica da United começará a funcionar em janeiro. Até o momento, Delta e American não anunciaram restrições similares na “última classe”. Mas, se a decisão da United se mostrar lucrativa, as concorrentes não tardarão a imitá-la.

Tensões. Isso não se traduzirá apenas em inconveniências e custos inesperados para os passageiros. Também reforçará as tensões sociais a 10 mil metros de altitude. Em artigo publicado em maio deste ano, os professores Katherine A. DeCelles, da Rotman School of Management, da Universidade de Toronto, e Michael I. Norton, da Harvard Business School, mostram que a chance de ocorrerem distúrbios a bordo é 3,8 vezes maior quando há no avião assentos de primeira classe. E a probabilidade duplica quando, ao embarcar, os passageiros têm de passar por essas poltronas largas e suntuosas antes de chegar ao aperto da classe econômica. As pessoas não se incomodam tanto de serem maltratadas; é a desigualdade flagrante que mexe com seus nervos.

É de se esperar que esse mesmo tipo de “conflito de classes aéreo” venha à tona quando os passageiros da classe econômica básica começarem a se remoer de ódio porque, a uma duas ou três fileiras de distância, as pessoas desfrutam do privilégio de viajar ao lado de seus familiares e têm à disposição o compartimento superior de bagagens; com o agravante de que isso estará acontecendo à vista de todos, e não atrás da cortina da classe executiva. É claro que foram eles mesmos que tomaram a decisão de abrir mão de conforto para pagar menos. Ainda assim, há o risco de que, em breve, até nos ares a paz e a harmonia social estejam por um fio.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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