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Briga de machos alfa

Os conflitos entre Estados Unidos e China estão longe de ser unicamente comerciais e envolvem geopolítica, investimentos, supremacia em tecnologias de ponta e negócios trilionários

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2020 | 18h00

Tudo o que aconteceu antes e depois da morte do general iraniano Qassim Suleimani parecia capaz de atirar o mundo em nova crise geopolítica. Mas o presidente Trump parece dar mostras de que não quer esticar demais essa e outras cordas.

A campanha para as próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos deve começar a se intensificar e nada mais prejudicial a um candidato que pretende ser reconduzido à Casa Branca do que enfrentar a indignação das famílias por possíveis mortes de soldados americanos em conflitos armados.

O refluxo das hostilidades acontece também onde não há disparos de mísseis ou, mais precisamente, na guerra comercial com a China. Para a próxima semana está agendada a assinatura do “acordo fase um”, cujo objetivo é conter acirramentos que poderiam colocar em perigo o bom funcionamento da economia ocidental.

Essa aí é uma briga de machos alfa: o primeiro deles, até agora hegemônico no bando, e o outro, o novo pretendente à liderança global. Os conflitos estão longe de ser unicamente comerciais. Envolvem geopolítica, investimentos ao redor do mundo e supremacia em tecnologias de ponta, como inteligência artificial, biotecnologia, robótica, controle de informações e internet 5G. Atrás de tudo isso e de mais coisas, negócios trilionários.

A partir do governo Xi, a China tomou a decisão de colocar em marcha agressivo programa de investimentos em infraestrutura na América Latina, África e Ásia. O novo complexo, conhecido como Nova Rota da Seda (One Belt, One Road), envolve investimentos na Ásia de US$ 1,9 trilhão, mais de 13 vezes o Plano Marshall, que ajudou a resgatar a Europa destruída na 2.ª Grande Guerra.

O novo campo de expansão do império está na área financeira. A China não esconde movimentos em direção da criação de uma moeda digital mundial e de expansão de um sistema que inclui pagamentos e transferências internacionais instantâneas de recursos, nos moldes das plataformas Alibaba e WeChat.

O governo dos Estados Unidos se mostra cada vez mais desconfortável com esse protagonismo, mas não sabe como enfrentá-lo. Sente que seus interesses econômicos vêm sendo crescentemente desafiados e, no entanto, mais esperneia do que os enfrenta com estratégia clara. Às vezes, argumenta que a ascensão global de um Estado comandado por um governo autoritário e centralizado coloca em risco os ideais liberal-democráticos sobre os quais foram construídos os Estados Unidos. Outras, que corre grave risco de espionagem, especialmente na área da Defesa. Já proibiu empresas americanas de comprarem tecnologia de telecomunicações da China, sob alegação de que suas informações seriam devassadas pelo governo de Pequim. É o mesmo argumento que leva Washington a levantar suspeitas de espionagem em professores e estudantes universitários chineses nos Estados Unidos.

Em artigo editado pela Project Syndicate, o economista Nouriel Roubini advertiu o governo Trump de que não é possível enfrentar o gigante chinês se continuar ignorando e antagonizando seus aliados do Ocidente, sob o argumento de que é preciso colocar os Estados Unidos (e somente eles) em primeiro lugar. Com isso, estaria contribuindo a transformar a China em um gigante de novo (to make China great again). Não há como não lhe dar razão.

CONFIRA

» Soluço da indústria

A queda da produção industrial em novembro, de 1,2% em relação a outubro, foi maior do que a esperada. Um melhor desempenho do setor fazia parte das expectativas de uma recuperação mais consistente da economia. Não se pode alegar que pesou contra um desempenho melhor a crise da Argentina, fator que já vinha atuando há mais tempo. Ainda que haja sinais de que o consumo interno esteja reagindo, esse tombo mais forte da indústria indica que a retomada do setor não é favas contadas.

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