Briga de poder domina os bastidores da Porsche e da VW

Famílias controladoras e executivos trocam farpas e buscam mais espaço no novo grupo

Dietmar Hawranek, DER SPIEGEL, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2008 | 00h00

Fazia tempo que Ferdinand Piëch não parecia tão relaxado e contente. É a noite do VW Group no Salão do Automóvel de Genebra e Piëch está sentado na primeira fila, vendo os carros desfilarem no palco. Entre eles há um VW Scirocco de 200 hp, um Audi R8 V12 TDI de 500 hp, um Bentley Brooklands de 530 hp, um Lamborghini Gallardo de 560 hp e um Bugatti Veyron de 1.001 hp. Piëch está radiante, quase como se seus 12 filhos estivessem no palco. Este é seu mundo e estes são seus carros. Acima de tudo, esta é a sua companhia, ou, pelo menos, parcialmente sua. E esta segunda-feira, 3 de março, é o seu dia.Naquela manhã, em Estocolmo, a VW havia adquirido a maior parte dos direitos de voto da fabricante de caminhões sueca Scania. O VW Group agora possui algo que Piëch buscava havia quase uma década: uma linha de produtos que vai de pequenos carros a caminhões de 40 toneladas, passando por sedãs de luxo. Naquela tarde, a Porsche anunciou em Stuttgart a aquisição da maior parte do VW Group.Piëch é amável e cordial até mesmo com quem lhe faz as perguntas mais incômodas. Ele permanece no evento até a meia-noite, deixando um fato claro para todos: o negócio foi fechado. Um novo gigante automotivo foi criado. Ele inclui oito marcas de carros (Porsche, Seat, Skoda, VW, Audi, Lamborghini, Bentley e Bugatti) e participações na Scania e na fabricante de caminhões alemã MAN. Tornou-se o quarto maior grupo automotivo do mundo. E tudo isso agora é dirigido pelas famílias Porsche e Piëch, que detêm todas as ações ordinárias da Porsche e, portanto, controlam o novo império.Mas não é fácil manter essa aparência de harmonia doméstica - nem mesmo por uma noite. Logo se torna óbvio que o novo império automobilístico, no momento, mais parece uma zona de guerra do que uma aconchegante sala de estar de família. O suposto espetáculo solo de Piëch é tudo, menos solitário. Na verdade, ele está num lugar onde todos brigam contra todos. A situação no campo de batalha é confusa e o desfecho da luta pelo poder está completamente em aberto.Para começar, representantes dos trabalhadores da VW e da Porsche discutem quantos assentos deveriam ocupar no conselho supervisor e na comissão de fábrica da nova companhia. Enquanto isso, Bernd Osterloh, presidente da comissão de fábrica da VW, dispara farpas contra o presidente-executivo da Porsche, Wendelin Wiedeking. Piëch, co-proprietário da Porsche, também se posicionou contra Wiedeking. Fontes internas dizem que Piëch considera até mesmo tirar Wiedeking da direção da Porsche.Wolfgang Porsche - primo de Piëch - e sua família, por seu lado, defendem o presidente-executivo da Porsche, o que leva a choques entre as duas famílias, os Porsche e os Piëch. Na VW, parece haver problemas em todos os níveis: entre os empregados, na administração e entre os dois clãs. As disputas envolvem inimizades, influência e poder, mas também o rumo que o novo gigante automotivo deverá tomar no futuro.O grupo deveria se concentrar em produzir carros extraordinários e deixar o lucro em segundo plano? Essa seria, grosso modo, a abordagem preferida da comissão de fábrica (que representa os interesses dos trabalhadores), de Ferdinand Piëch, um apaixonado engenheiro automobilístico, e do presidente-executivo da VW, Martin Winterkorn.Ou o grupo deveria buscar retornos mais altos e, para isso, fabricar carros comportados? Esta é a posição de Wiedeking e da família Porsche.PESSOASPiëch e Winterkorn deram o tom da recepção da VW em Genebra. O presidente-executivo da VW visitara a Suécia naquela manhã para informar aos executivos e representantes dos empregados da Scania que sua empresa havia comprado a maioria das ações do grupo sueco. Em várias reuniões anteriores, Winterkorn conseguira convencer os suecos de que seu futuro com a VW seria seguro.Naquela noite em Genebra, Winterkorn reiterou: "O importante numa aquisição são as pessoas", acrescentando que perdê-las significa perder a empresa. "As pessoas são tudo", disse.Winterkorn falava da VW e da Scania, mas o pronunciamento soou como um ataque à Porsche. Se existe algo a ser dito contra a Porsche, é que a fabricante de carros esportivos de Stuttgart, quando adquiriu uma grande fatia da VW, não deu importância suficiente às pessoas - de representantes de empregados a executivos.O modo como Wiedeking começou a interrogar os diretores da VW depois de se tornar membro do conselho supervisor não foi muito apreciado na sede da VW. Segundo um membro do conselho da VW, Wiedeking os tratou nas reuniões como crianças na escola.Embora Winterkorn não tenha criticado Wiedeking abertamente, ele não esconde sua convicção de que as coisas terão de mudar no conselho administrativo do grupo. Wiedeking preside a divisão Porsche e o diretor-financeiro Holger Härter é seu vice. Mas Winterkorn e outro executivo, que dirige a unidade de caminhões, deveriam ser representados no conselho da Porsche. Deveriam.Arranjos como este são motivo de atrito na administração da VW. Para os executivos de Wolfsburg, parece óbvio que a VW deveria assumir o papel de liderança - com a Porsche na posição de sua oitava marca de carros. Mas a transação VW-Porsche não é nem sequer uma fusão de iguais, como a antiga aliança entre a Daimler e a Chrysler. Do ponto de vista dos executivos de Wolfsburg, as coisas são muito piores: a Porsche, uma pequena companhia, teve a audácia de adquirir o grande VW Group.Nessa situação, o presidente-executivo da Porsche faria bem em exercer a discrição. Wiedeking tem muitos pontos fortes, mas a sensibilidade no trato com os diretores não é uma delas.Por outro lado, os membros do conselho da VW tendem a ignorar o fato de que a transação só foi possível porque a VW, com os lucros em queda, era uma compra barata, enquanto a Porsche, a fabricante de carros mais lucrativa do mundo, não teve dificuldade para assegurar o financiamento da aquisição. A própria administração da VW é responsável pela situação em que se encontra. Mas, aparentemente, a disputa no novo grupo está apenas no começo. BRIGAGigante: Com a aquisição do controle da VW, a Porsche passou a ser a dona de um grupo que inclui oito marcas de automóveis e participação nas fabricantes de caminhões Scania e MAN Poder: A Porsche é controlada pelas famílias Porsche e Piëch, que não têm a mesma visão sobre o futuro do novo grupo Rumo: Para os Piëch e o presidente da VW, o grupo deve se concentrar em fazer carros extraordinários e deixar o lucro em segundo plano. Para a família Porsche e o presidente da Porsche, o grupo deve fabricar carros comportados e buscar retornos mais altos

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