Briga defensiva contra a inflação
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Briga defensiva contra a inflação

Nesse embate, quem mais perde são os trabalhadores assalariados e os que vivem na informalidade

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 18h47

Entre os aspectos a analisar no pique da inflação de março está o que os economistas chamam de conflito distributivo.

É o megajogo de empurra que toma corpo na economia em que empresas e pessoas físicas tentam se compensar da inflação por meio de reajustes de preços para cima e adiamento de novas compras.

Quase ninguém esperava em março uma inflação tão alta, de 1,62% – a maior no mês de março desde 1994. Em 12 meses foi para 11,3% e a acumulada no primeiro trimestre deste ano, para 3,2%. Bastou a divulgação para o mercado revisar e elevar as projeções do IPCA para este ano e o seguinte.

 

Nesse conflito distributivo sempre alguns podem mais e outros menos. Em geral, quem mais perde são os assalariados e os que vivem de bico, nas ocupações por conta própria.

Qualquer um nota esse fenômeno defensivo diante da falta de justificativas para os reajustes. É o caso da manicure ou do encanador que passam a cobrar bem mais pelos seus préstimos “porque a gasolina subiu 10%”. E não adianta argumentar que, nesses e em outros serviços, é baixo o impacto do aumento dos combustíveis.

Do ponto de vista técnico, esse processo defensivo fica mais claro quando se leva em conta que o índice de difusão do custo de vida vem aumentando. Desde o fim de 2021, a alta alcança cerca de 70% dos itens que compõem a cesta de consumo. Em fevereiro foi para 75% e, em março, para 76%.

 

Nessa fase da inflação, o Banco Central, cuja função mais importante é defender a moeda contra a erosão inflacionária, faz o que pode, mas pode relativamente pouco. Não consegue derrubar a inflação produzida por disparada de custos (caso da alta dos combustíveis e dos alimentos), mas pode atuar sobre o conflito distributivo. Quando puxa pelos juros, ou seja, quando retira moeda da economia, encarece o crédito e dificulta a demanda por mercadorias e serviços. Se o poder aquisitivo caiu pela inflação, as vendas de carros caem, como está acontecendo.

As montadoras acusam que, em março, o encalhe de veículos novos em seus pátios alcançava 125,5 mil unidades. Se a manicure puxa seus preços, o cliente pode espaçar o tempo entre uma visita e outra.

O que poderia conter mais a inflação seria a baixa persistente dos preços internacionais do petróleo casada com a baixa, também persistente, das cotações da moeda estrangeira. Mas isso depende de mais coisas.

Como juros mais altos internamente trazem mais dólares e ajudam a derrubar o câmbio, também por essa razão se pode esperar agora uma estocada ainda maior dos juros básicos (Selic), hoje em 11,75% ao ano. O Banco Central prometeu que os levaria a 12,75%. Mas pode ir além, talvez para 13,75% ou para 14,0% ao ano. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.