Brincadeira do PIB chinês(2)

Até onde o crescimento da China pode sustentar a tímida recuperação da economia mundial? Essa é a dúvida entre os analistas, que estão surpresos com o último resultado do PIB chinês, mas mantêm cautela. Veem mais distorções que saídas. A China cresce principalmente porque exporta mais para um mundo que ainda luta para superar a recessão. PIB chinês de 9% e 10% para 1% ou 2% dos EUA e da União Europeia. É como tirar sangue de paciente anêmico.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

A última coluna comentou a dependência chinesa do comércio mundial. Errou ao comparar o PIB trimestral da China com o anual dos Estados Unidos. O PIB trimestral da China deve estar em US$ 5,2 trilhões. Não é dez vezes maior que o dos Estados Unidos, de US$ 14,7 trilhões, como dissemos, mas apenas três vezes. Ficam registrados a correção e meu pedido de desculpas.

Argumentos válidos. Diante disso, o argumento básico da última coluna perde força, mas se mantém. O crescimento da China no ritmo atual depende da Europa e, principalmente, dos EUA para onde destina 25% de suas exportações. Daí a dificuldade de superar o PIB americano. Também se mantém a afirmação de que essa história da China, com US$ 1,33 trilhão, ter passado o Japão, com US$ 1,28 trilhão, no segundo trimestre do ano, é brincadeira estatística. Entra na margem de erro, de avaliação cambial e principalmente na forma de cada país calcular seu PIB. Não se pode querer que a China, com 1,3 bilhão de habitantes, a maior parte dispersa nas províncias e no campo, tenha o mesmo rigor de cálculo do Japão, com 147 milhões concentrados em áreas urbanas.

Mas tudo isso não tem importância. O que importa é saber se a economia chinesa pode continuar crescendo no ritmo atual com aumento do mercado interno e não das exportações. E isso porque a China é importante demais para a recuperação mundial.

E pode? Aquí há mais perguntas do que respostas. O mercado interno representa 40% do PIB chinês. As exportações, 25%, mas elas se concentram na produção e vendas externas do setor industrial que, por sua vez, sustentam o emprego e a demanda interna. É uma economia em desequilíbrio, com indústria representando 49% do PIB, o setor de serviços, 40%, e a agricultura, 11%.

O PIB chinês acompanha um ritmo regressivo. No ano dourado de 2007 havia crescido 11,4%, o maior em 13 anos, e 9,1% no ano passado. Até agora está sendo sustentado por investimentos do governo da ordem de US$ 600 bilhões, em obras públicas e construção civil.

Distorções se aprofundam. Injetar 4 trilhões de yens na economia parece estar criando mais problemas do que soluções. E quem firma isso é o primeiro-ministro Wen Jiabao: "Com suas medidas macroeconomicas, (incentivos) a China enfrenta um dilema de proporções inesperadas". Cao Jianhai, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, compara a economia chinesa a "um vulcão antes da erupção". Há os US$ 2,4 trilhões das reservas, o governo pagará qualquer preço, mesmo não sabendo ainda qual será por cusa das dívidas ocultas das administrações das províncias.

Kenneth Rogoff, professor de Harvard, é mais pessimista. "Começamos a ver o colapso nas propriedades e o sistema bancário chinês será atingido." Ele vai mais longe e afirma, categórico: "Trata-se de uma bolha." Rogoff acertou muito no passado e nem de longe pode ser classificado como um economista assustado. Ele apenas repete o que outros têm dito: o sistema financeiro chinês está sobrecarregado de créditos duvidosos.

Vai continuar a crescer? A maioria dos economistas e institutos de pesquisa diz que sim. Há recursos, há um grande potencial interno por desenvolver. Mas fazem ressalvas. O modelo de grandes investimentos e injeção de recursos no mercado está gerando distorções. Já está sendo revisto pelo governo, que reconhece publicamente suas limitações. Só não encontrou ainda soluções. Por enquanto, usa custos baixos para aumentar as exportações, criando um dilema para a economia mundial. A China precisa do mundo para crescer, mas o mundo também precisa dela para superar de vez a recessão. Se o Brasil ganha nesse confronto, é tema para outra coluna. Ganha, sim, mas não tudo o que estão dizedo.

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