Brincando com fogo

Governos com fracas lideranças aumentam o risco de protestos e agitações sociais em reação à crise global

Nouriel Roubini, Project Syndicate, PARIS, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2012 | 03h10

Artigo

Os mercados financeiros vêm apresentando certa recuperação desde julho, na esperança de que as perspectivas econômicas e geopolíticas globais não se agravem, ou, se isso acontecer, que os bancos centrais estejam prontos a dar sustentação a economias e mercados com nova provisão de liquidez e afrouxamento quantitativo.

Portanto, não só a boa notícia - ou, pelo menos, uma notícia melhor do que a esperada - estimulou os mercados, como até a má notícia se tornou positiva, porque aumenta a probabilidade de que os presidentes dos bancos centrais, com sua função de bombeiros, como o "chairman" do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), e Mario Draghi, do Banco Central Europeu (BCE), joguem sobre os mercados baldes e mais baldes de dinheiro vivo.

Mas os mercados que se recuperam por causa de uma notícia boa ou má não são mercados estáveis. Episódios passados, em que a confiança dos investidores azedou, provavelmente voltarão a acontecer, caso as notícias econômicas se agravem e a confiança na eficiência dos estrategistas econômicos diminua.

Na zona do euro, a euforia se seguiu à decisão do BCE de dar suporte com compras praticamente ilimitadas de títulos de países em dificuldade. Mas a decisão não mudará o jogo de maneira substancial; ela é apenas uma maneira de as autoridades ganharem tempo para adotar medidas rigorosas imprescindíveis para solucionar a crise.

As dificuldades dessa política são desanimadoras: a recessão da zona do euro está se agravando, enquanto a consolidação fiscal direta e o severo aperto do crédito continuam. E, como os bancos e os mercados da dívida pública da zona do euro estão se tornando cada vez mais balcanizados, estabelecer uma união bancária, uma união fiscal e uma união econômica, buscando ao mesmo tempo políticas macroeconômicas que recuperem o crescimento, o equilíbrio externo e a competitividade, será extremamente difícil.

O próprio apoio do BCE não é tão óbvio. Os falcões da política monetária - o Bundesbank e vários outros bancos centrais do núcleo europeu -, que temiam um novo mandato sem prazo do BCE, tiveram sucesso em suas pressões e conseguiram a fixação de condições rigorosas e efetivas para os países que se beneficiarem com compras de títulos.

Consequentemente, poderão apelar para o programa, caso não atinjam seus rígidos critérios.

Além disso, a Grécia poderá sair da zona do euro em 2013, antes que a Espanha e a Itália estejam garantidas; a Espanha - assim como a Grécia - mergulha na depressão, e poderá precisar de uma operação de salvamento em escala total da troica (BCE, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional). Ao mesmo tempo, o estresse provocado pela austeridade na periferia da zona do euro se choca cada vez mais com o estresse da fadiga da ajuda no centro.

Não surpreende, pois, que a Alemanha, politicamente impossibilitada de votar pela concessão de mais recursos para a ajuda, tenha transferido a tarefa ao BCE, a única instituição que poderá contornar Parlamentos democraticamente eleitos. Mas a provisão de liquidez em si - sem a adoção de medidas capazes de restabelecer o crescimento num breve espaço de tempo - implicaria apenas adiar a dissolução da união monetária, sem que fosse possível impedi-la, com a destruição da unidade econômica e comercial e o desaparecimento do mercado único.

Nos Estados Unidos, os últimos dados econômicos - que incluem um fraco mercado de trabalho - confirmam que o crescimento está anêmico, de maneira que a produção do segundo semestre deste ano dificilmente será mais significativa que o ganho anual de 1,6% no período de janeiro a junho. E, considerando a polarização política e o impasse político do país, devemos prever mais conflitos em relação ao orçamento e ao teto do endividamento, mais um rebaixamento da classificação e nenhum acordo em vista da consolidação e da sustentabilidade fiscal no médio prazo - independentemente da reeleição ou não do presidente Barack Obama em novembro.

Ao contrário, devemos esperar um acordo somente no caso de uma menor resistência política, no sentido de que serão evitadas escolhas fiscais difíceis até que os vigilantes dos títulos despertem, em que se registrem altas dos juros de longo prazo e pressões para introdução de um ajuste fiscal no sistema político.

Na China, sobressaltos econômicos parecem extremamente prováveis depois do estouro da bolha dos investimentos e do decréscimo líquido das exportações. Ao mesmo tempo, estão sendo adiadas as reformas necessárias à redução da poupança e aumento do consumo privado.

Assim como na Europa e nos Estados Unidos, só será possível evitar o pior em 2012 se a solução dos problemas for adiada mediante um novo estímulo monetário, fiscal e do crédito.

Mas sobressaltos econômicos serão mais prováveis em 2013, quando o estímulo for absorvido, os créditos duvidosos aumentarem, a crise dos investimentos acelerar, e o problema da rolagem das dívidas dos governos provinciais e seus recursos especiais de investimento não mais puderem ser camuflados. E, como a nova liderança no poder se mostrará cautelosa, as reformas ocorrerão a passos de tartaruga, o que tornará mais provável a agitação social e política.

Brasil, Índia, Rússia e outras economias emergentes estão na mesma situação. Muitas não se adequaram porque a debilidade das economias avançadas reduz o espaço do crescimento gerado pelas exportações; e porque outras tantas continuam adiando reformas estruturais imprescindíveis para estimular o desenvolvimento e o crescimento da produtividade do setor privado, embora tenham adotado um modelo de capitalismo de Estado que logo revelará seus limites. Portanto, a recente desaceleração do crescimento nos mercados emergentes não é apenas cíclica, em razão do fraco crescimento ou mesmo da recessão nas economias avançadas; ela é também estrutural.

Essa hesitação é também evidente no plano geopolítico. As principais potências ainda procuram apelar para negociações e sanções a fim de induzir o Irã a abandonar seus esforços de construção de armas nucleares. Mas o Irã procura ganhar tempo na esperança de alcançar uma zona de imunidade. Até 2013, Israel, que - com ou sem razão - está convencido de que o programa nuclear do Irã constitui ameaça existencial, e/ou os EUA, que se recusam a frear o Irã na corrida às armas nucleares, talvez decidam atacá-lo, provocando uma guerra e uma alta considerável dos preços do petróleo.

Governos pouco eficientes com lideranças fracas estão na raiz do problema. Nas democracias, a sequência de eleições leva a escolhas de curto prazo. Nas autocracias, como China e Rússia, os líderes resistem a reformas radicais que reduziriam o poder dos lobbies e dos interesses que se perpetuam, alimentando desse modo a agitação social, porque na base dos protestos está a revolta contra a corrupção e os favorecimentos políticos.

Mas, enquanto todos preferem chutar a lata ladeira abaixo, a lata vai ficando mais pesada e, tanto nos principais mercados emergentes quanto nas economias avançadas, aproximando-se de uma parede de tijolos. Os responsáveis pelas decisões poderão chocar-se contra a parede ou mostrar a liderança e a visão necessárias para evitar o desastre, sem incorrer em maiores danos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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