Douglas Magno/ AFP
Parque da Cachoeira, em Brumadinho (MG) Douglas Magno/ AFP

Brumadinho aumenta pressão de investidor estrangeiro por mais transparência e segurança na mineração

Movimento formado por 110 investidores com mais de US$ 14 trilhões sob gestão questionou 727 mineradoras e deu origem a banco de dados global com informações de 1.939 barragens

Mariana Durão e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2020 | 16h37

RIO e SÃO PAULO - O colapso da barragem da Vale que vitimou 270 pessoas em Brumadinho (MG), um ano atrás, foi o gatilho para investidores estrangeiros pressionarem as mineradoras por maior transparência e segurança. Capitaneado pelo fundo de pensão The Church of England, um grupo de 110 investidores com mais de US$ 14 trilhões sob gestão questionou 727 mineradoras sobre suas barragens. Nesta sexta-feira, 24, véspera do aniversário da tragédia, se concretiza o primeiro resultado do movimento: um banco de dados global com informações de 1.939 barragens. Até o fim do semestre, deve sair do papel um código de melhores práticas para o armazenamento de rejeitos, com um padrão internacional a ser seguido por quem quiser atrair esse público.

A Vale sentiu na pele a reação desses atores. O Church of England se desfez das ações da mineradora. O megafundo de pensão californiano Calpers, de US$ 402 bilhões, vendeu todo seu portfólio de bonds (títulos de dívida) da companhia após o rompimento da barragem, sob o argumento das punições e custos de remediação a que ela será submetida. Líder em investimentos integrados ao desenvolvimento social, ambiental e de governança (ESG, na sigla em inglês), a gestora holandesa Robeco pôs a Vale em uma lista de empresas com restrições de investimento.

Consultados pelo Estadão/Broadcast, Church of England e Robeco afirmaram que ainda é cedo para pensar em reinvestir na mineradora brasileira. A Calpers não comentou. “Infelizmente, a Vale continua na nossa lista de exclusão. Os acidentes na empresa foram severos. Só teremos conforto em revisar nosso posicionamento uma vez que a Vale tenha descomissionado (fechado) todas as barragens em situação de risco em suas operações e tenha de fato implementado uma gestão ambiental de acordo com os padrões a serem estabelecidos pela iniciativa de investidores globais para a segurança no setor", diz a gestora da Robeco para Brasil, Daniela da Costa-Bulthuis.

"Não temos planos de afrouxar nossa restrição de investimento na companhia. Ainda há um longo caminho antes de considerarmos voltar a investir na Vale", afirma o diretor de Ética e Engajamento do Church of England, Adam Matthews.

Ao lado de especialistas e investidores, Matthews participa nesta sexta-feira, 24, em Londres, de uma cúpula sobre segurança de mineração e rejeitos. Para marcar um ano de Brumadinho, representantes das comunidades afetadas pela tragédia foram convidados a dar depoimentos. Segundo ele, o banco de dados criado a partir das respostas de 332 empresas mostrará onde estão as barragens, imagens das comunidades próximas e informação sobre suas condições de segurança.

O desastre de Brumadinho tem destaque no portal. “Estamos falando de um volume de 48 bilhões de metros cúbicos de rejeitos, cerca de 42 mil vezes o tamanho do Estádio de Wembley”, diz.

Questões ambientais pesam nas ações da Vale

Sob os holofotes do Fórum Econômico Mundial de Davos, os critérios ESG têm sido uma das causas do elevado desconto sobre o preço das ações entre a mineradora brasileira e suas principais concorrentes, as australianas BHP Billiton e Rio Tinto. Relatório recente do Citi apontou que 50% dessa diferença - de 20% a 30% no valor dos papéis, a depender do critério de análise - se devem justamente a questões ambientais, sociais e de governança.

O diretor de ratings corporativos da agência de classificação de riscos Fitch, Phillip Wrenn, afirmou ao Estadão/Broadcast que são exatamente deficiências em relação à questões ESG que impedem atualmente a Vale de ter um rating corporativo acima do que "BBB-". "O acidente de Brumadinho ocorreu, apesar de a administração afirmar que nunca mais haveria um rompimento na barragem de rejeitos semelhante à ocorrida na Samarco - uma joint venture entre Vale e BHP Billiton - três anos antes", disse.

Para ele, preocupações adicionais com ESG estão relacionadas com o gerenciamento de resíduos e materiais perigosos, além da resistência social aos projetos da mineradora, sejam eles de expansão ou novos projetos.

Daniela, da Robeco, disse que Brumadinho provocou a discussão sobre o impacto socioambiental da mineração. Para ela, um ano depois da tragédia, a ação de investidores já refletiu em maior abertura das mineradoras para falar sobre suas operações e os riscos ambientais relacionados. Membro da Iniciativa de Segurança para Investidores em Mineração e Rejeitos, nome do grupo criado pela Church of England, a gestora conduzirá, a partir deste ano, um trabalho com suas investidas mais relevantes em busca das melhores práticas de segurança no setor.

“Empresas que não endereçarem questões de segurança e ambiental vão ter um risco crescente de passivos ambientais, trabalhistas e de reputação. Isso fará com que investidores descontem mais os preços das ações para refletir esses riscos associados, reduzindo o potencial de valorização das empresas”, diz Daniela.

Notas de risco ganham mais importância

Com a demanda e o olhar cada vez mais atento dos investidores para questões ESG, as classificadoras de risco têm dado maior espaço a esses fatores em seus relatórios, afirmou a diretora de ratings corporativos a S&P, Flavia Bedran. Segundo ela, os riscos ambientais, sociais e de governança sempre foram inerentes à análise, mas hoje a abertura é maior nos relatórios. "Estamos colocando essas informações mais em evidência. Os fundos europeus estão bastante restritivos (em relação às questões ESG)".

No capital social da Vale, o único fundo estrangeiro com mais de 5% das ações é o BlackRock. O presidente da maior gestora do mundo, com mais de US$ 7 trilhões sob gestão, Larry Fink, tem sido ao longo dos últimos anos uma das vozes mais ativas em relação aos o investimentos e questões ESG, além do capitalismo responsável. Em sua última carta, destinada às lideranças empresarias de todo o mundo, Fink afirmou que a BlackRock vai desinvestir em setores com maior risco ao nível da sustentabilidade do globo, como produtores de carvão.

"Até o fim de 2020, todos os portfólios ativos e estratégias de consultoria estarão totalmente integradas a critérios ESG - isso significa que nossos gestores de portfólio serão responsáveis pela gestão adequada da exposição aos riscos ESG e pela documentação de como essas considerações afetaram as decisões de investimento realizadas", conforme carta da gestora, enviada a clientes na semana passada.

Ciente desse cenário, a Vale dedicou boa parte do Vale Day, encontro com analistas de mercado realizado no fim do ano passado, em Nova York e Londres, para apresentar seu plano estratégico para os próximos anos: reparar integralmente as consequências de Brumadinho, se transformar em uma empresa mais segura e confiável, e estabelecer um novo pacto com a sociedade, adotando metas envolvendo mudança climática, energia e florestas. A companhia informa que também lançou um portal voltado a dar transparência às suas ações ESG, expondo avanços e “gaps” da empresa.

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'Há um longo caminho antes de voltarmos a investir na Vale', diz diretor de fundo britânico

Church of England vendeu as ações que tinha da mineradora após desastre de Brumadinho

Entrevista com

Adam Matthews, diretor de Ética e Engajamento do fundo de pensão britânico Church of England

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2020 | 16h46

RIO - À frente de um grupo de investidores institucionais que passou a pressionar a indústria da mineração por maior transparência e segurança após o desastre com a barragem da Vale em Brumadinho, um ano atrás, o fundo de pensão britânico Church of England enxerga mudanças no setor, mas ainda insuficientes para a retomada firme da confiança.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o diretor de Ética e Engajamento do fundo, Adam Matthews, afirma que não pretende afrouxar as restrições de investimento na Vale. O Church of England se desfez das ações da mineradora brasileira após a tragédia que matou 270 pessoas. “Ainda há um longo caminho antes de considerarmos voltar a investir na companhia. Até hoje não construíram casas após o desastre (da Samarco) em Mariana, quatro anos atrás. É simplesmente inaceitável”, diz.

Batizado de Iniciativa de Segurança para Investidores em Mineração e Rejeitos, o movimento já reúne estrangeiros com mais de US$ 14 trilhões em ativos sob sua gestão. Eles solicitaram a 727 companhias no mundo esclarecimentos sobre suas barragens de rejeitos. Receberam respostas de 332, que representam por 54% da indústria de mineração pelo critério de valor de mercado, incluindo a Vale. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Um ano após o desastre em Brumadinho é possível dizer que algo mudou no setor pela pressão de investidores?

Sim, mas ainda não o suficiente. Há um longo percurso pela frente até que possamos dizer que a questão das barragens foi solucionada. Estamos desenvolvendo um novo padrão global em barragens de rejeitos, que será requerido pelos investidores. Pela primeira vez empresas divulgaram detalhes das operações de suas barragens. Recebemos dados de mais de 54% da indústria global de mineração por valor de mercado.

Algo mais?

Estamos trabalhando em novas intervenções para estabelecer um sistema de monitoramento global equivalente ao que opera na aviação e na navegação. Além disso, queremos identificar as barragens mais perigosas que precisam ser removidas e garantir que isso seja feito com urgência. Mas exigirá o engajamento de governos e empresas, além do apoio de investidores.

A Samarco é uma joint venture entre Vale e BHP. Por que essas sociedades preocupam?

Nos preocupa que elas possam levar a, ou incentivar, duplos padrões e inconsistências nos relatórios das companhias, em especial em relação a meio ambiente, social e governança (ESG).

Brumadinho afetou o apetite dos investidores em relação às mineradoras? É possível recuperar a confiança no setor?

Brumadinho certamente afetou a confiança dos investidores nas mineradoras. Mas podemos ter um mundo sem a mineração? Não. Ela tem papel fundamental em prover muitos dos recursos necessários à transição para uma economia de baixo carbono. No entanto, ainda há problemas a resolver. Há compromissos claros de alguns CEOs nesse sentido, mas eles não podem fazer isso sozinhos. O afastamento dos investidores do setor não é a resposta. Isso não quer dizer permanecer investido em todas as companhias. Diferenciar as que estão mudando ou tentando mudar é muito importante.

O Church of England vendeu as ações da Vale após o colapso de Brumadinho. A empresa ainda está na lista suja?

Sim. Não temos planos de afrouxar nossa restrição de investimento na companhia. Ainda há um longo caminho antes de considerarmos voltar a investir na companhia. Até hoje não construíram casas após o desastre (da Samarco) em Mariana, quatro anos atrás. É simplesmente inaceitável.

O fundo desinvestiu do setor de mineração como um todo?

De jeito nenhum. Assumimos compromissos em relação às mudanças climáticas aplicáveis às empresas de mineração. Isso inclui o compromisso de se envolver com empresas para incentivá-las a alinhar seus negócios ao Acordo de Paris e, em 2023, tomaremos decisões de desinvestimento levando em conta se houve alinhamento de seus modelos de negócios às metas de mudança climática.

A Vale fez mudanças de processo e na governança após Brumadinho. Como avaliam essas medidas?

Continuaremos a monitorar o desenvolvimento dessas mudanças de perto, incluindo as perspectivas das comunidades afetadas pelos desastres de Mariana e Brumadinho.

Qual a importância de criar um padrão internacional para a operação de barragens?

Um padrão global para o manejo de rejeitos está sendo desenvolvido através de um processo independente, com participação do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a rede Princípios para Investimento Responsável. Esperamos que seja publicado no primeiro semestre de 2020. Um padrão global é parte essencial em um conjunto de medidas para assegurar que não veremos futuros desastres com barragens de rejeitos, mas vai requerer a adesão e transparência das empresas, assim como um monitoramento independente.

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