BTG quer ser mais que um banco global

Banco de André Esteves planeja se tornar um gigante mundial das commodities e expandir sua atuação internacional

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2014 | 02h03

Não é segredo para ninguém que o BTG Pactual quer se globalizar. Prova disso é que há cerca de 30 dias, praticamente de uma tacada só, o banco de André Esteves arrematou a resseguradora Ariel Re, com base em Londres e Bermudas, e a gestora de fortunas suíça BSI. A expansão do BTG, antes mais focada na América Latina, avança a passos largos em seus diversos negócios, não restritos à área financeira, para os Estados Unidos, Europa e Ásia.

São nessas regiões que o BTG está se estruturando para ser um dos gigantes globais em commodities agrícolas, de energia e metais. Sem alarde, o banco contratou pesos pesados para comandar essa operação e competir de igual para igual com grupos como Cargill, Bunge e Glencore Xstrata, que têm décadas de tradição nesse segmento. Vale lembrar que não é um mercado para peixe pequeno.

E o BTG sabe disso. O banco já obteve o aval da LME (London Metal Exchange), a bolsa de metais de Londres, para operar armazéns em Singapura e entrou com pedido no fim do ano passado, por meio da subsidiária BTG Pactual Commodities Warehousing (US), para administrar unidades de armazenagem e de negociação de commodities nos Estados Unidos. O banco também teria feito, no fim do ano passado, uma oferta para a compra da unidade de commodities do JP Morgan.

Com uma equipe de 350 pessoas, Londres foi escolhida como sede dessa operação, sob o comando do brasileiro Ricardo Leiman, ex-presidente global da trading chinesa Noble Group. O BTG montou escritórios em São Paulo, Argentina, Genebra, EUA e Singapura.

Leiman foi contratado em 2013 para colocar em prática a operação de commodities no mundo e, desde então, está "roubando" do mercado vários profissionais. Da própria Noble, ele levou para o BTG os executivos Ozeias Oliveira, que responde pela operação em São Paulo, e Shon Loth, que está baseado em Londres e é especializado em metais. Na Argentina, o executivo Julian Roberts, ex-Bunge, comanda o negócio local (o país, assim como Brasil e EUA, é um tradicional produtor de grãos). Procurado, Leiman não quis comentar o assunto, dizendo que não tinha nada para falar sobre a atividade.

Oficialmente, por meio de sua assessoria, o BTG diz que não tem um porta-voz oficial para falar sobre essa "nova operação", que começou a ser estruturada há quase dois anos.

Mas, vez ou outra - como aconteceu na última conferência do banco com analistas, na semana passada - André Esteves deixa escapar que "está criando uma plataforma global de commodities".

"A estratégia é considerada interessante, uma vez que alguns bancos americanos e europeus estão saindo de commodities. Mas ter uma plataforma global não torna o banco global. Esse negócio já não tem a mesma lucratividade de cinco anos atrás. Além do risco de volatilidade, tem o custo alto de ter estrutura de armazenagem, por exemplo", disse uma fonte de um banco estrangeiro.

Private equity. O avanço fora das fronteiras da América Latina também já é notado, ainda que timidamente, pela divisão de "Merchant Banking" do BTG, o braço de participações em empresas de diversas áreas. Embora ainda tenha boa parte de seus ativos em companhias nacionais e latino-americanas, essa divisão já está se arriscando em negócios além dessas fronteiras. Levantamento feito pelo Estado mostra que cerca de 25% dos investimentos feitos pelo banco já são em empresas fora da América Latina.

Na Espanha, por exemplo, o BTG tem participação desde o fim de 2012 em duas importantes concessões. O banco é dono de 39% da ATLL, empresa responsável pelo abastecimento de água de Barcelona. E também detém 65% de uma concessão, válida por 25 anos, que gerencia projetos rodoviários de túneis da Catalunha, que liga Barcelona à região dos Pirineus franceses, e o de Vallvidrera, que liga Barcelona às principais cidades do interior do país.

Carlos Fonseca, o mandachuva dessa área de negócio do banco, afirma que o foco dos investimentos do BTG é a América Latina, e o Brasil é o principal mercado. No ano passado, contudo, o banco atravessou o Atlântico para criar a Petro- África, uma joint venture com a Petrobrás voltada para a exploração de óleo e gás no continente africano.

O BTG já é também um dos maiores gestores de florestas do mundo, com cerca de 550 mil hectares plantados nos Estados Unidos. Para o mercado, esse é um sinal de que o Brasil ficou pequeno demais para as pretensões de André Esteves.

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