Rafael Marchante|Reuters
Rafael Marchante|Reuters

BTG vai assumir Banif no Brasil

Braço brasileiro do banco português é considerado ‘filme de terror’; estimativa é de que contingências somem cerca de R$ 500 milhões

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 23h10

O banco BTG Pactual vai gerir o banco Banif Brasil, segundo informou nesta quinta-feira, 7, o jornal português ‘Económico’. De acordo com a publicação, os conselhos de administração do Banif e da Oitante, empresa que assumiu parte do banco em Portugal, assinaram acordos com o BTG para formar uma joint venture em que o banco brasileiro assume, num primeiro momento, a gestão da instituição, podendo comprar os ativos brasileiros do Banif posteriormente, incluindo o banco de investimentos.

O BTG não quis comentar o assunto. A instituição, no fim de 2015, passou por um período turbulento, com saída de dezenas de bilhões de reais de seus fundos depois que o ex-controlador, André Esteves, foi preso no âmbito da Operação Lava Jato. De lá para cá, o BTG vendeu uma série de ativos para fazer caixa e também pagar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de quem tomou emprestado cerca de R$ 5,5 bilhões para manter sua liquidez no período de “fuga” de divisas.

Algumas fontes próximas ao banco se mostraram surpresas com a notícia da joint venture. O comentário no mercado financeiro foi que esse tipo de negócio teria o perfil de André Esteves, que teve de deixar o controle da instituição, mas voltou ao banco neste ano, depois que teve sua prisão revogada. Esteves não reassumiu, no entanto, o cargo de presidente. O executivo comprou diversos bancos problemáticos no passado, como o Pan, e também alguns ativos do Bamerindus, com a meta de aproveitar créditos fiscais e recuperar créditos podres.

Algumas fontes informam que as contingências do Banif Brasil seriam da ordem de R$ 500 milhões. O valor envolve dezenas de ações judiciais, com créditos sendo questionados por fundos de pensão e clientes em geral, que acusam o banco de ter desviado patrimônios ou feito operações irregulares no mercado imobiliário. Além disso, a instituição tem discussões tributárias em andamento na Justiça.

O banco no Brasil era considerado bastante problemático pelos portugueses. De acordo com o Económico, em Portugal, o ex-presidente Jorge Tomé disse, em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que a operação no Brasil “foi explosiva” e que “o Banif Brasil é um filme de terror”.

O administrador atual do banco, António Varela, indicado pelo governo de Portugal, disse que as operações do Brasil eram desastrosas. “Não se tratava de má gestão ou simples incompetência. Havia todas as indicações de que se tratavam de atos criminosos”. O Banif chegou a ser citado em algumas investigações da Lava Jato. Um dos pagamentos feitos a Renato Duque, ex-executivo da Petrobrás, teria saído de uma conta do Banif.

O braço brasileiro teria gerado, entre 2012 e 2015, perdas de ¤ 267 milhões. Há cerca de dois anos, na tentativa de melhorar a gestão, uma nova diretoria assumiu a operação.

Na quinta-feira, esses executivos não foram encontrados para comentar a notícia. Segundo o Banco Central brasileiro, a instituição teve um prejuízo de cerca de R$ 4 milhões no primeiro trimestre. Mas, em 2015, gerou lucro de R$ 75 milhões. O total de ativos era de R$ 891 milhões; os depósitos somavam R$ 400 milhões.

Portugal. De acordo com histórico apresentado pelo Banco de Portugal, em 2013, o Banif recebeu ajuda estatal de ¤ 1,1 bilhão e deixou de pagar uma parcela ao governo em 2014. A Comissão Europeia começou a investigar a legalidade do auxílio, o que deu origem ao processo de venda da instituição.

Em dezembro, o Santander Totta comprou a atividade bancária do Banif, o que não incluiu a operação brasileira. Os ativos problemáticos ficaram nas mãos de um Fundo de Resolução, pertencente ao Estado, que assumiu o banco para preservar a poupança dos correntistas.

O Banif Brasil ficou na parte “podre” do Banif, gerido por Miguel Alçada. Mas algumas participações foram parar no veículo Oitante (criado pelo governo português). Em função disso, foram assinados dois acordos (um do Banif e outro da Oitante) com o BTG Pactual, segundo o jornal.

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