Buenos Aires vive histeria para compra de dólares

"Queremos comprar! Queremos comprardólares!"Este grito desesperado ecoou pela city financeira portenha natarde desta segunda-feira, depois do fechamento das portas das casas de câmbio.Milhares de pessoas, que haviam esperado sob a garoa durante horas nas filas de três quarteirões de extensão para a compra da moeda americana e que ainda não haviam sido atendidas, ao verem as entidades financeiras fechando, correram para bater seus punhos nas portas e implorar que abrissem por mais alguns minutos.Houve cenas de choro e histeria entre aqueles que ficaram com os desprestigiados pesos no bolso, sem obter as cobiçadas cédulas cinzento-esverdeadas.Naquele momento, às 15h, a cotação da moeda americana nos painéis eletrônicos havia fechado em uma faixa que ? dependendo da casa de câmbio - oscilava entre 3,90 pesos e 4 pesos.A maioria das pessoas que durante mais de uma hora esperaram inutilmente a reabertura das casas de câmbio temia que nesta terça-feira, quando o mercado cambial reabrir, a cotação poderá ser muito superior. Analistas não descartam que o dólar caminhará apressadamente para a casa de 5 pesos.Os portenhos procuraram as casas de câmbio, embora estastivessem uma cotação mais cara que a dos bancos, que vendiam os dólares a 3,10 pesos. Pelas ruas San Martín e Sarmiento, em pleno coração da city, também trafegavam pessoas que haviam viajado durante a noite, provenientes do interior do país ? como das províncias de Córdoba e Santa Fe - onde a cotação costuma ser mais cara.O ex-vice-ministro da Economia, Orlando Ferreres, afirmou que os argentinos estavam "histéricos" em relação ao dólar, epediu que mantivessem a calma. Ferreres disse que se tivessedólares, os teria vendido neste dia de histeria, sugerindo que a cotação da moeda americana tenderia a cair.No entanto, para Alfredo Piano, proprietário da casa de câmbio mais tradicional da city financeira, a Casa Piano, "tudo aquilo que seja utilizado para restringir a compra ou venda de divisas, acaba causando a escassez do produto, e junto com isso, o aumento do interesse das pessoas, e assim, o aumento do preço".O presidente do Banco Central, Mario Blejer, pouco antes departir para Washington, onde explicaria ao FMI uma série demedidas para conter o dólar, declarou que o BC não reagirá"histericamente". Segundo Blejer, o BC possui "reservassuficientes para intervir no mercado".No meio da confusão, o chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, descartou os rumores sobre a dolarização da economia ou a criação de uma nova conversibilidade entre o peso e o dólar com uma relação não mais um a um entre as duas moedas, como antigamente, mas com uma nova equivalência, possivelmente de 4 pesos para US$ 1 ou 5 pesos para US$ 1.Segundo o secretário-geral da presidência, Aníbal Fernández, "o dólar não tira o sono do presidente Eduardo Duhalde". Do lado do ministério da Economia, o silêncio foi total.Mas a Igreja argentina não quis ficar de fora da polêmicasobre a moeda norte-americana. O bispo da cidade de Santiago del Estero, monsenhor Juan Carlos Maccarone, afirmou que "existe avareza por trás da disparada do dólar" e afirmou que "a febre que ocorre em Buenos Aires não tem nada a ver com a doença do interior do país".Mais uma vez, nesta segunda-feira, os argentinos deram um voto de desconfiança cambial ao governo do presidente provisório Duhalde. Mas não somente a população deu as costas aos pedidos de tranqüilidade emitidos infrutiferamente pelo governo, já que as casas de câmbio desrespeitaram a determinação do Banco Central, que havia estabelecido que o novo horário de funcionamento destas entidades financeiras seria reduzido das 10h às 17h para a faixa das 11h30 às 15h horas. As casas abriram às 10h, mas foram obrigadas a fechar no novo horário.Esta era uma das medidas que o Banco Central pretendiautilizar para conter a disparada do dólar. Outras das medidasanunciadas na virada do domingo para a segunda-feira, era apermissão para que os exportadores pudessem liquidar suasdivisas diretamente no BC.Além disso, este organismo voltou a obrigar os bancos a quenão possuam dólares em uma quantia superior a 5% de seupatrimônio. Os bancos que não acatarem a decisão não poderão comercializar dólares amanhã.O Banco Central também adotou medidas para conter a sangria de suas reservas. Neste caso, o BC avisou que os bancos terão que começar a cancelar os 10 bilhões de pesos (US$ 2,5 bilhões) em passes e redescontos.O dia foi um pesadelo para o governo Duhalde, que recebeu a má notícia da queda abrupta da construção civil, que despencou 43 1% em fevereiro em relação ao mesmo mês do ano passado. Além disso, as vendas dos supermercados caíram 3,9% em fevereiro em comparação com o mesmo período de 2001. Nos shoppings centers, o mês passado foi sombrio, já que as vendas foram reduzidas em 296%.Desde este fim de semana, temendo uma nova disparada dospreços dos produtos da cesta básica, os argentinos tambémcorreram aos supermercados para adquirir o que fosse necessário. Enquanto isso, a remarcação dos preços não parou. O Centro de Indústria de Padaria de Buenos Aires anunciou que o pão poderá ter um aumento de 30% em breve.Para uma das principais associações de comércio do país, aFedecámaras, os preços dos produtos da cesta básica járegistraram aumentos de até 50%. A expectativa de Claudia Costaguta, coordenadora da associação defesa dos consumidores Adelco, é que a inflação de março chegaria a 4%. Desta forma, no primeiro trimestre deste ano haveria uma inflação acumulada de 9,3%.O governo promete que a inflação anual não passará de 22%. No entanto, diversos analistas afirmam que facilmente poderia chegar a mais de 60%, e alguns não descartam que atinja 100%.Duhalde até 2003 - Uma pesquisa da consultora Graciela Römer e Associados indica que 70% de empresários dos setores financeiro, produtor e de serviços consideram que é mais adequado para a Argentina que o presidente Duhalde continue até o fim de seu mandato, em dezembro de 2003.Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.